Resenha: Ides of Gemini – Old World New Wave (2014)

Assim como The Devil’s Blood e Jess and the Ancient Ones, o Ides Of Gemini é uma banda que também apresenta vocais femininos e foca no oculto. O trio formado por Sera Timms (vocal e baixo), Jason Bennett (guitarra) e Kelly Johnston-Gibson (bateria), tinha a missão de afirmar-se musicalmente e consolidar a sua proposta. A estréia, “Constantinopla” (2012), apresentava os instrumentos minimalistas e crus do black metal noventista, porém trazendo principalmente elementos de doom, post-rock e shoegaze; com o resultado soando despretensioso.

“Old World New Wave”, lançado pela Neurot Recordings, gira em torno da voz de Sera Timms; não pela falta de qualidade dos outros membros, mas sim pela excessiva técnica de Sera, que assombra com o seu vocal com momentos etéreos e quase operísticos. Bennett é uma incrível máquina de riffs densos, muito influenciado por Victor Griffin do Pentagram. Já a baterista soa simplista na maioria das vezes, mas nada muito prejudicial.

As letras falam de dualismos: forças opostas (yin-yang) com seus conflitos psicológicos e cada uma movida por um ideal. O foco é realmente a escola da psicologia analítica de Carl Jung, que descreve determinadas estruturas de transformação psico-espiritual. “May 22, 1453” pode resumir toda essa transgressão emocional; sendo uma canção ritualística sobre o eclipse lunar que teria previsto a queda de Constantinopla na mesma data.

“The Adversary” é um dos poucos momentos onde a guitarra de Bennett vence os vocais esotéricos de Sera; onde baixo e bateria se entrelaçam e a guitarra brilha de uma forma suja e pesada. As influências de Pentagram aparecem mais nitidamente em”Black Door” e “Fememorde”, que de fato são Doom. Há ainda atmosferas distintas, como a épica “White Hart” e os zumbidos de “The Chalice & The Blade”; mas as últimas duas faixa decepcionam a aura ocultista do registro, parecendo que não foram desenvolvidas corretamente.

Tracklist:
1. Black Door
2. The Chalice & The Blade
3. Seer Of Circassia
4. White Hart
5. May 22, 1453
6. The Adversary
7. Fememorde
8. Valediction
9. Scimitar

Resenha: Today Is The Day – Animal Mother (2014)

A diferença entre música e ruído é subjetiva. A situação tornou-se ainda mais complexa após a invenção da “música noise” a algumas décadas atrás – a forma de vanguarda musical que usa elementos “não-musicais” para compor obras musicais. A questão psicológica e filosófica não é quais tipos de sons são considerados ruído ou música; mas sim, o que isto pode causar na mente. E sim, nunca é uma jornada tranquila.

A imprevisibilidade nas ações é algo comum em quem tem distúrbios mentais; mas isto não é um sinal de loucura, apenas é um sintoma de quem tem uma mente complexa e inquieta. E quando esta imprevisibilidade vem em forma de música, é apenas mais uma forma de testar a nossa capacidade de compreensão sobre a consciência humana e como isto pode nos tocar através de sensações.

Mestre nesse tipo de provocação psicótica, o Today Is The Day é uma banda formada em 1992, onde mudanças estilísticas e na formação ocorreram em cada álbum; porém, sempre com Steve Austin tomando as rédias. “Animal Mother” é o décimo registro da carreira, o primeiro pelo selo da Southern Lord; e soando intensamente lamacento e libertador.

Se a faixa-título tem momentos e ritmos ímpares, “Disciple” é efetivamente feroz e enquadra o ouvinte em uma sala úmida; e a progressão de “Sick Of Your Mouth” é um belo passeio pelo lodo das entranhas cerebrais. Contrabalançando tudo, “Outlaw” tem duas versões: uma acústica, profunda e que parece levar a uma terapia condenatória; e uma elétrica, ainda mais desafiante. Outra música que merece destaque é “Bloodwood”; semi-acústica, arrastada e reflexiva. Certamente é um registro que precisa ser ouvido de forma integral, e pelo menos uma das faixas vai te puxar para dentro.

Tracklist:
1. Animal Mother
2. Discipline
3. Sick Of Your Mouth
4. Imperfection
5. Law Of The Universe
6. Outlaw
7. Godcrutch
8. Divine Reward
9. Masada
10. Heathen
11. Mystic
12. The Last Strand
13. Outlaw
14. Bloodwood