Resenha: Thou + The Body – You, Whom I Have Always Hated (2015)

Álbuns colaborativos têm sempre a ambição de unir horizontes, apesar de que naturalmente há um ponto opaco em comum que viabilize essa junção de artistas. Um exemplo mais recente disto envolve o Sunn O))), que já trabalhou com nomes como Boris e Ulver em busca de explorar a psicodelia dos drones. Mas e quando essa união vem de duas das entidades que mais transpiram agonia e desolação na face da terra, o quão masoquista isto pode ser?

Thou e The Body são bandas realmente frenéticas, incansáveis e incontroláveis; marcadas pelas dezenas de registros nos últimos anos (contando também os splits e colaborações), onde nenhum deles é um mero déjà vu de diferentes formas de sofrimento, o objetivo de ambas é sempre trazer a dor em uma forma mais viva. Os ótimos lançamentos do ano anterior (“I Shall Die Here” do The Body, e “Heathen” do Thou) ofuscaram o início dessa parceria com o EP “Released From Love”, que é uma massa preta de sujeira e caos.

As linhas entre as duas entidades borram ainda mais em “You, Whom I Have Always Hated”. Seus dois sons e estilos distintos se fundem ainda mais, torcendo e colidindo em uma pilha grotesca e alucinante de ódio auto-replicante e destruição. E a abertura com “Her Strongholds Unvanquishable” traz uma dose niilista de movimentos industriais inexplicáveis, até desencadear em “The Devils of Trust Steal the Souls of the Free”, com uma incrível agressividade exalada pelos vocais de Vic Chessnut (Thou) e Chip King (The Body). Um desespero de sangrar os ouvidos.

Se “Beyond the Realms of Dream, That Fleeting Shade Under the Corpus of Vanity” é uma progressão lenta de gemidos e ambientações eletrônicas, “Terrible Lie” é definitivamente o ponto que faz valer a audição desse álbum. Ora, um cover de Nine Inch Nails? Sim, só que em uma versão muito mais colossal e corrosiva. Em vez de misturar seu respectivo poder e intensidade em conjunto, as duas bandas optam por multiplicá-lo e deixar o amor à violência sonora se acumular em ambas, criando uma sensação crescente de tensão e um peso de proporções alarmantes.

Tracklist:
1. Her Strongholds Unvanquishable
2. The Devils of Trust Steal the Souls of the Free
3. Terrible Lie
4. Beyond the Realms of Dream, That Fleeting Shade Under the Corpus of Vanity
5. He Returns to the Place of His Iniquity
6. Lurking Fear

Resenha: Merzbow + Xiu Xiu – Merzxiu (2015)

O Record Store Day parece ser uma data totalmente vazia e que já perdeu o seu real sentido a alguns anos. Veja bem, eu disse “parece”, pois ainda há uma luz no fim desse túnel cheio de caça-níqueis analógicos. E uma dessas exceções é o trabalho colaborativo de Merzbow e Xiu Xiu.

Sobre os autores do registro, Merzbow, projeto de Masami Akita, é um dos mais prolíficos artistas da cena noise japonesa. Já o Xiu Xiu, liderado por Jamie Stewart, pode ser considerado um dos principais e mais incompreendidos nomes dos últimos tempos da música experimental; mesclando elementos industriais, pops, eletrônicos e de art rock, embalados por narrativas melodramáticas sobre os vários horrores da vida moderna. Esta dupla havia se unido apenas uma vez anteriormente, em 2010, para um show no Le Poisson Rouge em New York.

Apesar do amplo potencial, o registro apresenta apenas duas faixas (uma em cada lado do vinil), ambas passando dos 17 minutos. É difícil explicar em termos mais específicos a sonoridade presente aqui, mas os conhecedores dos dois artistas podem encontrar semelhanças no que já foi produzido anteriormente: é como um álbum do Xiu Xiu, só que sem qualquer melodia ou qualquer estrutura com sentido coerente; e é como um álbum do Merzbow, trazendo uma enxurrada implacável de texturas de som alto e abrasivos e drones dissonantes.

Tracklist:
1. Lado A (untitled)
2. Lado B (untitled)

Resenha: Liturgy – The Ark Work (2015)

“The Ark Work” é um álbum de dividir opiniões. Você já pode ter lido essa descrição uma dezena de vezes, mas este registro parece trazer dúvidas ainda mais profundas sobre a real qualidade presente aqui: mesmo aqueles que o classificam como ‘genial’ tem uma dificuldade em transcrever o motivo para terem chegado a isto, e essas respostas são as mesmas que faltam aos que o taxam como ‘horrível’. Mas afinal, o que instiga essas questões?

A trajetória anterior do Liturgy traz faces quase completamente distintas do que é ouvido aqui: enquanto “Renihilation” (2009) é cru, bruto e utiliza as características mais simplórias que o black metal pode apresentar; “Aesthethica” (2011) foi uma obra de evolução incrível desses aspectos, subestimando os fãs puristas que caíram alí de paraquedas, além de incrementar o lado extremo com elementos de noise e math rock.

Não sei se o passado da banda resultaria no que é apresentado aqui, ou se é tudo um lunatismo do seu líder pseudo-filósofo Hunter Hunt-Hendrix – aquele que outrora pregou o transcendentalismo e espiritualismo do black metal, seja lá o que isso quer dizer -, mas a absurda mescla de gêneros musicais é o ponto chave, e chega ao seu objetivo: o choque. A mistura de canto gregoriano, metal, art rock, hip-hop e música eletrônica não é de uma maneira convencional, tanto que a impressão é que houve uma “colagem aleatória” em cima de batidas pré-programadas, na maioria das vezes.

Essa colagem toda soa ridícula e estranha, ficando entre o orgânico e o artificial, mas parece que há algo oculto que me estimule a clicar no repeat após o final de cada faixa. Um exemplo claro disto é a canção single, “Quetzalcoatl”: com teclados medonhos, um blast beat repentino e o monótono vocal de Hunt-Hendrix, ela cresce de uma forma viajante e bela, por mais estranho que isso possa ser. “Vitriol”, que é praticamente um rap, impressiona pela falta de emoção, mas curiosamente é empolgante. O sentimento de amor-ódio aumenta ainda mais a cada audição, provando ao menos pra mim que esse é um dos trabalhos mais visionários dos últimos tempos.

Tracklist:
1. Fanfare
2. Follow
3. Kel Valhaal
4. Follow II
5. Quetzalcoatl
6. Father Vorizen
7. Haelegen
8. Reign Array
9. Vitriol
10. Total War