Resenha: Daniel Menche & Mamiffer – Crater (2015)

Mesmo estando a frente de bandas como o Old Man Gloom, Sumac e House of Low Culture, era nítido que Aaron Turner focaria suas atenções no Mamiffer após o fim do Isis; afinal de contas, recusar entrar na banda liderada por sua esposa – Faith Coloccia – não era uma das escolhas mais lúcidas a serem feitas. Mas obviamente Turner, também dono da gravadora Hydra Head e um dos mais incansáveis nomes do metal alternativo dos últimos 15 anos, não encararia levar o projeto simplesmente por questões matrimoniais.

Mamiffer é realmente um projeto único, onde sua essência basicamente é criar sensações desesperadoras. Coloccia geralmente está por trás do núcleo de cada composição, graças a um astuto piano com uma enorme atenção melódica, porém com ruídos, drones e climas pesados e desconfortantes que se entrelaçam naturalmente a ele. E na busca por uma não estagnação de ideias, juntaram-se a nomes como Locrian, Pyramids e Merzbow, em colaborações que certamente acrescentaram na musicalidade do Mamiffer.

Com Daniel Menche não foi muito diferente. O estadunidense, que desde os anos 1990 trabalha ininterruptamente em criações ambient e noise, esteve por quatro anos junto ao projeto na composição dos sons aqui presentes. O resultado disso é um registro que vai da contemplação de paisagens sonoras admiráveis,​​ para uma descida claustrofóbico as profundezas escuras e gélidas sob drones perturbadores. Este caminho – que pode ser entendido como uma descida até a cratera – ocorre de forma meditativa, sem nenhuma turbulência, onde se sabe o porquê de cada passo ser no escuro.

“Calyx” e “Maar”, as peças mais curtas do álbum, foram muito bem pensadas, tanto para abrir quanto para fechar a audição. Ambas trazem o toque sutil do piano de Coloccia e da guitarra de Turner, que são jogadas a um processamento de distorções por parte de Menche, representando uma maneira bela de chegar ao caos. O núcleo do disco é ainda mais dinâmico e explora as field recording – como o barulho de água corrente em “Exuviae” ou o som de pedras que introduz “Alluvial” – que combinados aos drones e experimentos eletrônicos de Menche explanam o que há de melhor aqui: transmitir um sentimento penetrante e de fascinação.

Tracklist:
1. Calyx
2. Husk
3. Alluvial
4. Breccia
5. Exuviae
6. Maar