William Blake, os Provérbios do Inferno e a música

The Body of Abel Found by Adam and Eve

Pode-se dizer que William Blake foi um artista completo: poeta, pintor, ilustrador, místico e revolucionário; viveu os seus setenta anos com ideias e ações bem à frente da sociedade inglesa da primeira metade do século XIX. Defensor do individualismo, da liberdade sexual, de um papel mais relevante para a mulher, sua poesia influenciou poetas de grande importância para o avanço das concepções e técnicas poéticas.

Por ter uma série de visões radicais, o poeta foi chamado de louco por décadas, mas engana-se quem acredita que ele teve uma base educacional sólida: Blake jamais foi a escola. Mas isto não gerou qualquer ressentimento contra seus familiares; tanto é, que em Canções da Experiência, ele descreve um jovem estudante que é forçado a ir a escola por seus pais e solta o seguinte desabafo no conto: “A instrução não serve para nada. Considero-a um mal – o maior dos pecados”, firmando assim seu pensamento a favor do autodidatismo humano.

Seu gosto por redesenhar e transcrever gravuras veio desde a infância e foi desenvolvido antes mesmo de iniciar suas aventuras poéticas, procurando criar uma personalidade própria e ir contra o que chamava de “pintura acadêmica do século 18”, e que representava tudo o que ele detestava na época em que estava vivendo: o racionalismo e o materialismo. Veja abaixo algumas de suas obras

O Ancião dos Dias
Nebuchadnezzar
O Fantasma de uma Pulga

 

Newton 1795-c. 1805 by William Blake 1757-1827
Newton

Blake escreveu The Marriage of Heaven and Hell no início de 1790, no ápice da Revolução Francesa, quando ele compartilhava as expectativas de vários conterrâneos radicais, que a Revolução era a violência universal que foi predita pelos profetas bíblicos como um estágio imediatamente anterior ao milênio. Com esse livro, o autor pretendeu escrever uma “nova Bíblia” – ou uma anti-Bíblia -, pois evoca, em certos momentos, uma “Bíblia do Inferno”. Profundo conhecedor e estudioso dos livros sagrados e da Cabala, Blake contesta a ordem de ambas as religiões, judaica e cristã, opondo-lhes, como poeta, uma transgressão inusitada.

O livro é dividido em cinco capítulos, com os dois primeiros trazendo uma espécie de “introdução do que é o bem e o mal” (que seriam necessários para o andamento do mundo); e no terceiro capítulo cria uma análise sobre o inferno – aparentemente é um lugar de tormentos, mas que na realidade é onde pensadores livres podem deleitar-se com a verdadeira experiência da existência. Já a quarta parte, na qual me estimulou a escrever este texto, traz uma série de metáforas que foram universalmente espalhadas pelo mundo posteriormente.

Blake, ainda em seu passeio pelo inferno, coleta alguns provérbios e afirma que estes são apenas ditados cativantes, com uma moral que ajuda as pessoas a se lembrarem do que é certo. Dependendo da visão de quem lê, pode ser interpretado como apenas uma sátira ou como pura blasfêmia, pois a Bíblia tem um livro inteiro só de provérbios, e Blake sabia já naquela época que seus leitores estariam familiarizados ao simbolismo positivista deles. A inclusão desses provérbios também pode ser enxergada como um ato do autor para manter uma relação com o mundo através de sua mente e os usa para defender a sua visão.

A banda feminina de pós-punk As Mercenárias musicou 80% dos provérbios em seu segundo disco, Trashland (1988), em português

Já o Ulver buscou algo ainda maior em 1998: musicou todos os cincos capítulos do livro do poeta no álbum de industrial metal Themes from William Blake’s The Marriage of Heaven and Hell, e o resultado pode ser ouvido em “Proverbs of Hell”

Proverbios do Inferno

No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.
A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.
Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.
O verme partido perdoa ao arado.
Mergulha no rio quem gosta de água.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.
Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.
A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.
A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.
As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.
Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.
Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez.
Nenhum pássaro se eleva muito, se se eleva com as próprias asas.
Um cadáver não vinga as injúrias.
O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.
Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.
A loucura é o manto da velhacaria.
O manto do orgulho é a vergonha.
As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.
O orgulho do pavão é a glória de Deus.
A luxúria do bode é a glória de Deus.
A fúria do leão é a sabedoria de Deus.
A nudez da mulher é a obra de Deus.
O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.
O rugir de leões, o uivar dos lobos, o furor do mar tempestuoso e da espada destruidora são fragmentos de eternidade grandes demais para os olhos humanos.
A raposa condena a armadilha, não a si própria.
Os júbilos fecundam. As tristezas geram.
Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.
O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.
O sorridente tolo egoísta e o melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que sejam flagelos.
O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.
A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes;
o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.
A cisterna contém; a fonte derrama.
Um só pensamento preenche a imensidão.
Dizei sempre o que pensas, e o homem torpe te evitará.
Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade.
A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.
A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.
De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.
Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.
Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da educação.
Da água estagnada espera veneno.
Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.
Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!
Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.
O fraco na coragem é forte na esperteza.
A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa.
Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.
Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.
A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.
Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.
Criar uma florzinha é o labor de séculos.
A maldição aperta. A benção afrouxa.
O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.
Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!
A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.
Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.
A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.
A Exuberância é a Beleza.
Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.
O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.
Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.
Onde o homem não está a natureza é estéril.
A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.
É suficiente! ou Basta.

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