3 mini-resenhas: Esmectatons & Vomir, Nihilistgod e Vulgar Débil

Esmectatons & Vomir – Queued For Eternity

Colaborações têm o poder de somar ideias e chegar num resultado que possivelmente jamais poderia ser alcançado se fosse realizado exclusivamente por apenas uma mente. Isso se dá por questões óbvias: cada um tem uma série de experiências de vida e conhecimentos culturais que tornam a sua própria personalidade única e exclusiva dentro de um universo. E uma dessas uniões instigantes – ao menos na expectativa -, é Queued For Eternity, de Esmectatons & Vomir. Antes de tecer algumas linhas sobre tal, acho válido abrir aspas para uma citação interessante sobre o conceito abordado pelo Vomir – projeto ruídoso do francês Romain Perrot -, escrito por Henrique Iwao neste panorama sobre o noise:

Paredão: a fisicalidade do som sentida em sua complexidade, gerando uma resposta cognitiva de que se trata de uma coisa só, que seria descrita como absolutamente estática, mas que é percebida como uma série de pequenas variações, afundamentos, afogamentos, deslocamentos de sensações. Coexistência do molar e do molecular. Se não há ninguém como Vomir pelas redondezas, a propor a experiência do solipsismo sonoro, ainda assim pensaremos na gênese (coloque um saco de lixo na cabeça e o mundo será o resultado da sua mente criando o mundo – não o pensamento, mas a percepção).

Como eu havia dito, saber da existência disso criou em mim realmente uma expectativa a respeito, simplesmente porque o Esmectatons é a antítese do Vomir; enquanto um é uma mistura esquizofrênica de referências frenéticas, o outro é a imersão total no tudo-ao-mesmo-tempo-agora imóvel. O que se encontra aqui é a busca por uma sobreposição de nuances no harsh noise wall – mesmo que o som físico ao fundo já seja composto por micro-entretons – onde o Esmectatons intervem apenas com trechos sonoros (distorção em riffs de guitarra, notas em um sintetizador…), modulados com o objetivo de ser um amplitude desse “afogamento do todo” do Vomir.

Nihilistgod – Festa

Nihilistgod é um projeto de “música experimental” criado por João Gabriel Silva em 2014, com o propósito de não ter um gênero definitivo em sua essência, com músicas improvisadas. Gravando todos os instrumentos sozinho e em casa, João é um artista deveras prolífico; cujos seus lançamentos – que incluem projetos musicais com outros pseudônimos – vão da música de 8-bits ao black metal e lo-fi indie.

Aqui, em seu novo trabalho, o músico traz uma vasta série de referências que remetem a melodias do pop mais etéreo noventista, redesenhando memórias que parecem vagas sobre Air, Cocteau Twins ou Slowdive. A sequência de sons busca uma espécie de “cronologia dos fatos” de uma festa adolescente (e isto é transcrito de maneira nítida no título de cada música), podendo ser identificado logo em “Entrada”, com seus tímidos sintetizadores, representando a introversão do personagem imaginário. A cada acontecimento de Festa, o som busca acompanhar o que ocorre na mente de quem está vivendo aquilo; seja a psicodelia eletrônica de “LSD” ou as ambiências leves e extasiantes de “Beijo Efebo”.

Vulgar Débil – A Flauta de Pã

Em minha visão interpretativa, o noise tem, como principal característica, a possibilidade de uma experiência sensorial única para o receptor, independente das motivações do seu criador. Isso acontece justamente por ter uma forma nada semelhante das maneiras musicais convencionais, gerando sensações através do resultado da junção de elementos sonoros barulhentos – ou até de sons rotineiros da nossa vida.

A Flauta de Pã (lançado pela Seminal Records), um dos registros artísticos deste ano do Vulgar Débil, carrega isso. A forma com que situações (batidas na madeira, som de passos, ruído de choque de talheres, engrenagens de uma locomotiva em movimento…) – e até o grasnar de gralhas – são utilizadas, servem aqui para realçá-las e inseri-las em um contexto ainda maior, repleto de ambiências industriais. O resultado de disso tudo é um caos com um forte odor familiar e, por sua vez, é fruto de algo ainda maior: a memória.

Eu mesmo, quando avisto uma locomotiva travando o tráfego de veículos na zona sul de Joinville – o que acontece umas cinco ou seis vezes por dia -, me espanto o quanto uma geringonça (secular, datada da Revolução Industrial) tem o poder de quebrar o ciclo frenético de um ambiente urbano. O seu som ecoa longe e, mesmo em casa, me vem essa série de pensamentos sobre a contradição que é a presença dela ali. Pois uma locomotiva não é uma locomotiva; assim como um ruído não é um ruído.

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