Todos os posts de Giovanni Cabral

3 mini-resenhas: Esmectatons & Vomir, Nihilistgod e Vulgar Débil

Esmectatons & Vomir – Queued For Eternity

Colaborações têm o poder de somar ideias e chegar num resultado que possivelmente jamais poderia ser alcançado se fosse realizado exclusivamente por apenas uma mente. Isso se dá por questões óbvias: cada um tem uma série de experiências de vida e conhecimentos culturais que tornam a sua própria personalidade única e exclusiva dentro de um universo. E uma dessas uniões instigantes – ao menos na expectativa -, é Queued For Eternity, de Esmectatons & Vomir. Antes de tecer algumas linhas sobre tal, acho válido abrir aspas para uma citação interessante sobre o conceito abordado pelo Vomir – projeto ruídoso do francês Romain Perrot -, escrito por Henrique Iwao neste panorama sobre o noise:

Paredão: a fisicalidade do som sentida em sua complexidade, gerando uma resposta cognitiva de que se trata de uma coisa só, que seria descrita como absolutamente estática, mas que é percebida como uma série de pequenas variações, afundamentos, afogamentos, deslocamentos de sensações. Coexistência do molar e do molecular. Se não há ninguém como Vomir pelas redondezas, a propor a experiência do solipsismo sonoro, ainda assim pensaremos na gênese (coloque um saco de lixo na cabeça e o mundo será o resultado da sua mente criando o mundo – não o pensamento, mas a percepção).

Como eu havia dito, saber da existência disso criou em mim realmente uma expectativa a respeito, simplesmente porque o Esmectatons é a antítese do Vomir; enquanto um é uma mistura esquizofrênica de referências frenéticas, o outro é a imersão total no tudo-ao-mesmo-tempo-agora imóvel. O que se encontra aqui é a busca por uma sobreposição de nuances no harsh noise wall – mesmo que o som físico ao fundo já seja composto por micro-entretons – onde o Esmectatons intervem apenas com trechos sonoros (distorção em riffs de guitarra, notas em um sintetizador…), modulados com o objetivo de ser um amplitude desse “afogamento do todo” do Vomir.

Nihilistgod – Festa

Nihilistgod é um projeto de “música experimental” criado por João Gabriel Silva em 2014, com o propósito de não ter um gênero definitivo em sua essência, com músicas improvisadas. Gravando todos os instrumentos sozinho e em casa, João é um artista deveras prolífico; cujos seus lançamentos – que incluem projetos musicais com outros pseudônimos – vão da música de 8-bits ao black metal e lo-fi indie.

Aqui, em seu novo trabalho, o músico traz uma vasta série de referências que remetem a melodias do pop mais etéreo noventista, redesenhando memórias que parecem vagas sobre Air, Cocteau Twins ou Slowdive. A sequência de sons busca uma espécie de “cronologia dos fatos” de uma festa adolescente (e isto é transcrito de maneira nítida no título de cada música), podendo ser identificado logo em “Entrada”, com seus tímidos sintetizadores, representando a introversão do personagem imaginário. A cada acontecimento de Festa, o som busca acompanhar o que ocorre na mente de quem está vivendo aquilo; seja a psicodelia eletrônica de “LSD” ou as ambiências leves e extasiantes de “Beijo Efebo”.

Vulgar Débil – A Flauta de Pã

Em minha visão interpretativa, o noise tem, como principal característica, a possibilidade de uma experiência sensorial única para o receptor, independente das motivações do seu criador. Isso acontece justamente por ter uma forma nada semelhante das maneiras musicais convencionais, gerando sensações através do resultado da junção de elementos sonoros barulhentos – ou até de sons rotineiros da nossa vida.

A Flauta de Pã (lançado pela Seminal Records), um dos registros artísticos deste ano do Vulgar Débil, carrega isso. A forma com que situações (batidas na madeira, som de passos, ruído de choque de talheres, engrenagens de uma locomotiva em movimento…) – e até o grasnar de gralhas – são utilizadas, servem aqui para realçá-las e inseri-las em um contexto ainda maior, repleto de ambiências industriais. O resultado de disso tudo é um caos com um forte odor familiar e, por sua vez, é fruto de algo ainda maior: a memória.

Eu mesmo, quando avisto uma locomotiva travando o tráfego de veículos na zona sul de Joinville – o que acontece umas cinco ou seis vezes por dia -, me espanto o quanto uma geringonça (secular, datada da Revolução Industrial) tem o poder de quebrar o ciclo frenético de um ambiente urbano. O seu som ecoa longe e, mesmo em casa, me vem essa série de pensamentos sobre a contradição que é a presença dela ali. Pois uma locomotiva não é uma locomotiva; assim como um ruído não é um ruído.

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Compilação: V/A – Russian Anarchist Black Metal (2016)

O black metal tem lá seus paradoxos, mas é um vanguardismo constante.

É impressionante a capacidade de artistas desenvolverem novas formas de conteúdo musical a partir de uma mesma estrutura primitiva (e ainda assim complexa) que é o gênero. Nos últimos anos, principalmente, há uma enormidade de bandas que buscam, de alguma forma, “quebrar” partes dessa estrutura original – solidificada quase há três décadas por obras seminais de Mayhem, Darkthrone, Emperor e tal – e ampliar um horizonte estético com base em elementos que não são tradicionalmente oriundos dessa cultura. Essa coletânea anti-NSBM é mais um exemplo disto.

Aqui nesta compilação, os sons apresentados não foram gravados exclusivamente para estarem nessa seleção, e também não são necessariamente tão recentes assim. Contando com bandas como Axidance, essa coletânea passeia por diversas facetas não muito convencionais do black metal e que se relacionam com crust punk, grindcore, screamo, post-bm e dark ambient; claro, todas elas possuindo alguma identificação ideológica, em determinado grau, com o anarquismo. Para baixar o arquivo diretamente, clique aqui.

Tracklist:
1. Iprit – Surrounded by Wolves
2. Бесконечная зима – Навь
3. Lago – Чернеют флаги
4. Minaret – Шахтерская
5. Axidance – Aeon III – The old spirit of war
6. The Homeless Is Dead – Samostrel
7. Nimrud – Ishkur
8. kageraw – Когда приходит весна, я знаю мы будем счастливы
9. Искра Жизни – Механизм производства
10. iзба -1914
11. Warona – не позволь крови засохнуть
12. Ancient Oak – Iron Troll
13. Кривда – Решение
14. Tlaloc – …
15. Варзуга – В изоляции там
16. Дно – Голос прошедшей эпохи

Links relacionados:
Red & Anarchist Black Metal – blog divulgador de álbuns, novos ou não, sobre bandas de black metal e crust com essa relação ideológica
Lista de álbuns essenciais, no Rate Your Music
Página no VK
Guia: “Como Enfrentar o Fascismo no Metal Extremo” (em italiano). Pode ser lido também em inglês, espanhol e francês.
No Metal Archives e Reddit

Dehors: tensão, caos e contemplação do ruído vertiginoso

O que é o Dehors? Qual o propósito de tal? Por que o ruído?

Estas perguntas acima são fundamentalmente desnecessárias, visto que, a parcela de “pistas” que traçariam o conceito de cada obra do projeto(?) não parece necessariamente trazer algo concreto ou que possa apresentar alguma clareza sob o que é ouvido. Mas, aí fica outra questão muito mais importante a respeito disto: qual o motivo para buscar respostas tão objetivas? Simplesmente não há. No primeiro álbum (dehors), por exemplo, todas as faixas estão dispostas em numerais crescentes (1., 2., 3., 4.) e possuem a mesma duração (2 minutos e 36 segundos), além de, apesar de uma gravação de campo aqui e acolá, apresentarem uma rispidez tipicamente punk e timbres sísmicos à la black metal.

O black metal é uma forma de punk.

No lançamento posterior, The Black Metal Mixtape, já conseguimos notar o anseio pela ruptura. A utilização da ideia de “mixtape de black metal” não está diretamente ligada à uma antropofagia musical, pois nota-se que a estrutura, típica do gênero em questão, é estendida num ponto próximo da “destruição” – próximo para que o elo com o esqueleto black metal ainda exista e para que não haja o “caos total”. Henrique Barbosa Justini, em uma resenha no site Floga-se, descreve bem esse paralelo de saturação e quebra:

“… o black metal precisava sair da própria conceituação pra deixar de desempenhar um papel específico. Não se trata de subverter nada. Mas sim propor uma nova assimilação do black metal além-gênero. É uma reafirmação originária. É uma continuidade de sons sufocantes que sinaliza uma marca além de algo que pensávamos estar estabelecido.”

Agora, a fim de efetivamente explorar novos estímulos sensoriais, o Dehors acaba de lançar um trabalho audiovisual abrupto e intenso. O típico harsh noise catártico do projeto ainda está evidente, mas, a novidade aqui é que há um trabalho em vídeo fortíssimo, onde o contraste entre o preto e o branco casa perfeitamente com o som abrupto – e que pesa em nossa mente como uma chuva de meteoritos. Com o decorrer dos minutos, a experiência fica cada vez mais profunda, até sermos completamente envoltos nessa aura “mágica” que o título do vídeo indica.

Importante: caso você sofra de epilepsia fotosensitiva, NÃO recomendamos a visualização do vídeo a seguir.

Resenha: John Coltrane – Offering: Live at Temple University 1966 (2014)

Para os desentendidos, Coltrane foi simplesmente o maior saxofonista da história do jazz, tendo uma gigantesca influência nos modelos mais experimentais do gênero, no nascente fusion, no rock e na música erudita. Sua discografia é bem longa, com mais de 100 registros entre estúdio e ao vivo, mas aqui tem-se um retrato da fase mais “free” do fim de sua vida.

John Coltrane começou a sua trajetória de sucesso em 1955, ao ser convidado por Miles Davis a fazer parte do seu quinteto. Ao lado do genial trompetista, esteve em 21 registros oficiais, dentre eles Kind of Blue, uma das obras mais impactantes da história do jazz. Logo após Live at the Village Vanguard, ele ficaria conhecido como o mais representativo nome do avant-garde jazz e do free jazz, contendo longas improvisações e com solos técnicos e longos. Sua vida teve um fim prematuro: vítima de câncer de fígado, ele morreu em 1967 aos 40 anos.

Nesta apresentação de 1966, Coltrane é acompanhado pela sua mulher Alice Coltrane, no piano; Pharoah Sanders, no sax tenor; Rashied Ali, na bateria; e Sonny Johnson no baixo (que tocou somente neste show substituindo Jimmy Garrison). Além disso, participaram os percussionistas Umar Ali, Algie DeWitt, Charles Brown e Robert Kenyatta, e os jovens saxofonistas Arnold Joyner e Steve Knoblauch. São cinco músicas em 90 minutos de improvisos e técnica. Se há algum defeito, talvez seja a mixagem, em que claramente os saxes têm uma nitidez sonora muito grande e os instrumentos de percussão soam abafados.

“Naima”, cuja gravação de estúdio é de 1959, é extremamente mais livre que a original, prova disso são os seis minutos introdutórios. Aqui há uma improvisação feroz e viajante, com um bom solo melódico de Alice no piano. “Crescent” é explosiva. Incríveis 26 minutos de sons profundos e frenéticos, em que Pharoah Sanders aparece pela primeira vez no sax. “Leo” traz ritmos repetitivos, e John se divide entre o sax soprano e delirantes linhas vocais que ecoam sem direção.

“Offering” tem apenas quatro minutos, mas soa talvez como a mais experimental, momento de Coltrane explorar suas habilidades. “My Favorite Things” é arrepiante desde a introdução de baixo, crescendo e crescendo, o mestre vai conduzindo a sua banda em ritmos intensos, até enfim usar os seus poderes para fazer com que as partículas sonoras rasguem a escuridão.

Ravi, filho de Coltrane e o responsável pela recuperação do registro, explica: “Para mim, a gravação de Temple University é uma afirmação de que, não, ele não esgotou o saxofone. O saxofone foi apenas uma ferramenta, sobre a qual ele teve o comando de mestre. Sua voz era uma extensão do saxofone como o saxofone era uma extensão da sua voz”.

Tracklist:
1. Naima
2. Crescent
3. Leo
4. Offering
5. My Favorite Things

Resenha: Mütterlein – Orphans Of The Black Sun (2016)

Rotineiramente, eu e outras pessoas com fome de consumir formas de música “dark” vamos direto a fontes ligadas ao metal extremo, ou por artistas que sustentam a sua maneira de compor em referências de sons barulhentos similares a isto. Mas às vezes a essência da dor, frustração, raiva, isolamento e o desejo desafiador de jogar fora as amarras, que tanto prendem tais sentimentos e restringem a sua expressão, podem ser transmitidas por outros meios. E muitas vezes a convocação dessa essência vem de fontes inesperadas.

Orphans Of The Black Sun é o primeiro álbum do duo francês Mütterlein – cujo nome foi retirado de uma música de Desertshore (1970), disco da cantora e atriz alemã Nico -, formado pela vocalista, compositora e intérprete Marion Leclercq (da cultuada banda francesa Overmars) e apoiado pelo multi-instrumentista Christophe Chavanon; servindo também como estreia do selo Sundust Records. E eu não sei de que forma eu deveria rotular esse som, para direcionar o leitor que se interessar em ouvir o que se encontra aqui, até porque estou confortável com o termo “Rock Assombroso” que eles mesmos criaram. Esta é uma música original, que é também altamente emocional e densa, mas ainda assim, Orphans of The Black Sun é acima de tudo um álbum que transcende as fronteiras da darkwave, do folk apocalíptico, do ambient e do post-punk, oferecendo uma experiência única.

Se você for ouvir Mütterlein pela primeira vez, é provável que aquilo que se destaca de imediato é a voz de Marion Leclercq. Não é bonita em qualquer sentido clássico ou convencional, mas há uma gigantesca pureza e poder, uma paixão genuína naquilo que ela transmite; uma obscuridade peculiar e exótica diferente de cantoras como Diamanda Galás, Jarboe ou Chelsea Wolfe. E a música que circunda a voz dela, como uma névoa sobre a roda, é ao mesmo tempo sombria e sinistra, tanto ritualística como alucinatória. Tudo está interligado, e o álbum funciona melhor se ouvido como uma totalidade, mas ainda assim, quando Marion coloca todo o seu ser na frenética “My War” você vai permanecer sem palavras, acredite. Um drama tão poderoso e virulento, construído sobre o ódio, dor e medo, que é impossível manter-se despreocupado e calmo. Já “Mother Black Sun”, que encerra o registro, traz uma espécie de serenidade, fragilidade e um estranho conforto que fundem-se com uma enorme dose de melancolia em seu término, mas mesmo assim o suspense e vazio são eminentes.

Vale ainda destacar as fortes mensagens líricas, geralmente tecendo histórias fascinantes de vidas destruídas, neuroses profundas ou insanidade, catapultando a intensidade do álbum, que já é emocionalmente carregada e sombria. A voz de Marion é uma fonte adequada para passar essa mensagem, ainda que surpreendentemente abstrata em expressividade, conseguindo provocar medo e calafrios. Às vezes parece que é possível ouvir uma pessoa esquizofrênica sofrendo dentro de si mesma, às vezes soa como uma bruxa levado para uma fogueira para ser queimada, em outros momentos também soa frágil ao ponto de você sentir uma espécie de compaixão.

Tracklist:
1. Lesbians Whores And Witches
2. Black Dog
3. My War
4. Heirs Of Doom
5. Ghost Army
6. Mother Black Sun

William Blake, os Provérbios do Inferno e a música

The Body of Abel Found by Adam and Eve

Pode-se dizer que William Blake foi um artista completo: poeta, pintor, ilustrador, místico e revolucionário; viveu os seus setenta anos com ideias e ações bem à frente da sociedade inglesa da primeira metade do século XIX. Defensor do individualismo, da liberdade sexual, de um papel mais relevante para a mulher, sua poesia influenciou poetas de grande importância para o avanço das concepções e técnicas poéticas.

Por ter uma série de visões radicais, o poeta foi chamado de louco por décadas, mas engana-se quem acredita que ele teve uma base educacional sólida: Blake jamais foi a escola. Mas isto não gerou qualquer ressentimento contra seus familiares; tanto é, que em Canções da Experiência, ele descreve um jovem estudante que é forçado a ir a escola por seus pais e solta o seguinte desabafo no conto: “A instrução não serve para nada. Considero-a um mal – o maior dos pecados”, firmando assim seu pensamento a favor do autodidatismo humano.

Seu gosto por redesenhar e transcrever gravuras veio desde a infância e foi desenvolvido antes mesmo de iniciar suas aventuras poéticas, procurando criar uma personalidade própria e ir contra o que chamava de “pintura acadêmica do século 18”, e que representava tudo o que ele detestava na época em que estava vivendo: o racionalismo e o materialismo. Veja abaixo algumas de suas obras

O Ancião dos Dias
Nebuchadnezzar
O Fantasma de uma Pulga
Newton

Blake escreveu The Marriage of Heaven and Hell no início de 1790, no ápice da Revolução Francesa, quando ele compartilhava as expectativas de vários conterrâneos radicais, que a Revolução era a violência universal que foi predita pelos profetas bíblicos como um estágio imediatamente anterior ao milênio. Com esse livro, o autor pretendeu escrever uma “nova Bíblia” – ou uma anti-Bíblia -, pois evoca, em certos momentos, uma “Bíblia do Inferno”. Profundo conhecedor e estudioso dos livros sagrados e da Cabala, Blake contesta a ordem de ambas as religiões, judaica e cristã, opondo-lhes, como poeta, uma transgressão inusitada.

O livro é dividido em cinco capítulos, com os dois primeiros trazendo uma espécie de “introdução do que é o bem e o mal” (que seriam necessários para o andamento do mundo); e no terceiro capítulo cria uma análise sobre o inferno – aparentemente é um lugar de tormentos, mas que na realidade é onde pensadores livres podem deleitar-se com a verdadeira experiência da existência. Já a quarta parte, na qual me estimulou a escrever este texto, traz uma série de metáforas que foram universalmente espalhadas pelo mundo posteriormente.

Blake, ainda em seu passeio pelo inferno, coleta alguns provérbios e afirma que estes são apenas ditados cativantes, com uma moral que ajuda as pessoas a se lembrarem do que é certo. Dependendo da visão de quem lê, pode ser interpretado como apenas uma sátira ou como pura blasfêmia, pois a Bíblia tem um livro inteiro só de provérbios, e Blake sabia já naquela época que seus leitores estariam familiarizados ao simbolismo positivista deles. A inclusão desses provérbios também pode ser enxergada como um ato do autor para manter uma relação com o mundo através de sua mente e os usa para defender a sua visão.

A banda feminina de pós-punk As Mercenárias musicou 80% dos provérbios em seu segundo disco, Trashland (1988), em português

Já o Ulver buscou algo ainda maior em 1998: musicou todos os cincos capítulos do livro do poeta no álbum de industrial metal Themes from William Blake’s The Marriage of Heaven and Hell, e o resultado pode ser ouvido em “Proverbs of Hell”

Proverbios do Inferno

No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.
A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.
Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.
O verme partido perdoa ao arado.
Mergulha no rio quem gosta de água.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.
Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.
A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.
A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.
As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.
Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.
Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez.
Nenhum pássaro se eleva muito, se se eleva com as próprias asas.
Um cadáver não vinga as injúrias.
O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.
Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.
A loucura é o manto da velhacaria.
O manto do orgulho é a vergonha.
As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.
O orgulho do pavão é a glória de Deus.
A luxúria do bode é a glória de Deus.
A fúria do leão é a sabedoria de Deus.
A nudez da mulher é a obra de Deus.
O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.
O rugir de leões, o uivar dos lobos, o furor do mar tempestuoso e da espada destruidora são fragmentos de eternidade grandes demais para os olhos humanos.
A raposa condena a armadilha, não a si própria.
Os júbilos fecundam. As tristezas geram.
Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.
O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.
O sorridente tolo egoísta e o melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que sejam flagelos.
O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.
A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes;
o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.
A cisterna contém; a fonte derrama.
Um só pensamento preenche a imensidão.
Dizei sempre o que pensas, e o homem torpe te evitará.
Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade.
A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.
A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.
De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.
Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.
Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da educação.
Da água estagnada espera veneno.
Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.
Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!
Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.
O fraco na coragem é forte na esperteza.
A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa.
Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.
Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.
A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.
Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.
Criar uma florzinha é o labor de séculos.
A maldição aperta. A benção afrouxa.
O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.
Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!
A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.
Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.
A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.
A Exuberância é a Beleza.
Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.
O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.
Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.
Onde o homem não está a natureza é estéril.
A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.
É suficiente! ou Basta.

Resenha: Skullflower/Mastery – Skullflower / Mastery (2013)

Este é um daqueles splits em que ambos os artistas visam apenas criar o melhor ruído imundo que o mundo já viu, e, como tal, há um público limitado neste campo. Muitas pessoas não estão dispostas a ouvir o que soa como um desastre de trem, mas podemos encontrar a beleza no caos, de alguma forma.

Skullflower é um projeto de música experimental liderado por Matthew Bower que já está a trinta anos em atividade, tendo relação com outros importantes nomes deste nicho caótico (entre eles Whitehouse, Coil e Ramleh); buscando sempre criar um lisérgico mundo necro e barulhento que, em contraste com muitos outros projetos industriais, nasceu dos instrumentos mais tradicionais do rock em vez de colagem de sons ou uso de sintetizadores. As três músicas do Skullflower não apresentam passagens rítmicas em particular, mas formam um longo (e esquizoide) tema ambient, com atmosferas semelhantes entre si. Drones de guitarra, sons em looping e um resultado que muitas vezes beira o harsh noise… Psicótico.

Então chegamos a quarta faixa, “Blood Electric”, cujo o responsável é o californiano Steve Peacock (que também atende pelo nome de Ephemeral Domignostika no Mastery), apresentando um monstro de 17 minutos onde o black metal é desconfigurado de sua faceta original e se aproxima do mathcore e do free jazz. Nos ruídos estridentes iniciais já é possível notar a complexividade e o dinamismo propostos, logo catapultados por uma fome e uma ferocidade absurdas, onde o músico joga riffs descontroladamente na música enquanto vômita frases com a mesma intensidade. Urgência angustiante, isso seria a melhor definição.

Tracklist:
1. Skullflower – Wolf Age
2. Skullflower – Red Crystal Serpent
3. Skullflower – Black Sunshine
4. Mastery – Blood Electric