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Resenha: John Coltrane – Offering: Live at Temple University 1966 (2014)

Para os desentendidos, Coltrane foi simplesmente o maior saxofonista da história do jazz, tendo uma gigantesca influência nos modelos mais experimentais do gênero, no nascente fusion, no rock e na música erudita. Sua discografia é bem longa, com mais de 100 registros entre estúdio e ao vivo, mas aqui tem-se um retrato da fase mais “free” do fim de sua vida.

John Coltrane começou a sua trajetória de sucesso em 1955, ao ser convidado por Miles Davis a fazer parte do seu quinteto. Ao lado do genial trompetista, esteve em 21 registros oficiais, dentre eles Kind of Blue, uma das obras mais impactantes da história do jazz. Logo após Live at the Village Vanguard, ele ficaria conhecido como o mais representativo nome do avant-garde jazz e do free jazz, contendo longas improvisações e com solos técnicos e longos. Sua vida teve um fim prematuro: vítima de câncer de fígado, ele morreu em 1967 aos 40 anos.

Nesta apresentação de 1966, Coltrane é acompanhado pela sua mulher Alice Coltrane, no piano; Pharoah Sanders, no sax tenor; Rashied Ali, na bateria; e Sonny Johnson no baixo (que tocou somente neste show substituindo Jimmy Garrison). Além disso, participaram os percussionistas Umar Ali, Algie DeWitt, Charles Brown e Robert Kenyatta, e os jovens saxofonistas Arnold Joyner e Steve Knoblauch. São cinco músicas em 90 minutos de improvisos e técnica. Se há algum defeito, talvez seja a mixagem, em que claramente os saxes têm uma nitidez sonora muito grande e os instrumentos de percussão soam abafados.

“Naima”, cuja gravação de estúdio é de 1959, é extremamente mais livre que a original, prova disso são os seis minutos introdutórios. Aqui há uma improvisação feroz e viajante, com um bom solo melódico de Alice no piano. “Crescent” é explosiva. Incríveis 26 minutos de sons profundos e frenéticos, em que Pharoah Sanders aparece pela primeira vez no sax. “Leo” traz ritmos repetitivos, e John se divide entre o sax soprano e delirantes linhas vocais que ecoam sem direção.

“Offering” tem apenas quatro minutos, mas soa talvez como a mais experimental, momento de Coltrane explorar suas habilidades. “My Favorite Things” é arrepiante desde a introdução de baixo, crescendo e crescendo, o mestre vai conduzindo a sua banda em ritmos intensos, até enfim usar os seus poderes para fazer com que as partículas sonoras rasguem a escuridão.

Ravi, filho de Coltrane e o responsável pela recuperação do registro, explica: “Para mim, a gravação de Temple University é uma afirmação de que, não, ele não esgotou o saxofone. O saxofone foi apenas uma ferramenta, sobre a qual ele teve o comando de mestre. Sua voz era uma extensão do saxofone como o saxofone era uma extensão da sua voz”.

Tracklist:
1. Naima
2. Crescent
3. Leo
4. Offering
5. My Favorite Things

Resenha: Mütterlein – Orphans Of The Black Sun (2016)

Rotineiramente, eu e outras pessoas com fome de consumir formas de música “dark” vamos direto a fontes ligadas ao metal extremo, ou por artistas que sustentam a sua maneira de compor em referências de sons barulhentos similares a isto. Mas às vezes a essência da dor, frustração, raiva, isolamento e o desejo desafiador de jogar fora as amarras, que tanto prendem tais sentimentos e restringem a sua expressão, podem ser transmitidas por outros meios. E muitas vezes a convocação dessa essência vem de fontes inesperadas.

Orphans Of The Black Sun é o primeiro álbum do duo francês Mütterlein – cujo nome foi retirado de uma música de Desertshore (1970), disco da cantora e atriz alemã Nico -, formado pela vocalista, compositora e intérprete Marion Leclercq (da cultuada banda francesa Overmars) e apoiado pelo multi-instrumentista Christophe Chavanon; servindo também como estreia do selo Sundust Records. E eu não sei de que forma eu deveria rotular esse som, para direcionar o leitor que se interessar em ouvir o que se encontra aqui, até porque estou confortável com o termo “Rock Assombroso” que eles mesmos criaram. Esta é uma música original, que é também altamente emocional e densa, mas ainda assim, Orphans of The Black Sun é acima de tudo um álbum que transcende as fronteiras da darkwave, do folk apocalíptico, do ambient e do post-punk, oferecendo uma experiência única.

Se você for ouvir Mütterlein pela primeira vez, é provável que aquilo que se destaca de imediato é a voz de Marion Leclercq. Não é bonita em qualquer sentido clássico ou convencional, mas há uma gigantesca pureza e poder, uma paixão genuína naquilo que ela transmite; uma obscuridade peculiar e exótica diferente de cantoras como Diamanda Galás, Jarboe ou Chelsea Wolfe. E a música que circunda a voz dela, como uma névoa sobre a roda, é ao mesmo tempo sombria e sinistra, tanto ritualística como alucinatória. Tudo está interligado, e o álbum funciona melhor se ouvido como uma totalidade, mas ainda assim, quando Marion coloca todo o seu ser na frenética “My War” você vai permanecer sem palavras, acredite. Um drama tão poderoso e virulento, construído sobre o ódio, dor e medo, que é impossível manter-se despreocupado e calmo. Já “Mother Black Sun”, que encerra o registro, traz uma espécie de serenidade, fragilidade e um estranho conforto que fundem-se com uma enorme dose de melancolia em seu término, mas mesmo assim o suspense e vazio são eminentes.

Vale ainda destacar as fortes mensagens líricas, geralmente tecendo histórias fascinantes de vidas destruídas, neuroses profundas ou insanidade, catapultando a intensidade do álbum, que já é emocionalmente carregada e sombria. A voz de Marion é uma fonte adequada para passar essa mensagem, ainda que surpreendentemente abstrata em expressividade, conseguindo provocar medo e calafrios. Às vezes parece que é possível ouvir uma pessoa esquizofrênica sofrendo dentro de si mesma, às vezes soa como uma bruxa levado para uma fogueira para ser queimada, em outros momentos também soa frágil ao ponto de você sentir uma espécie de compaixão.

Tracklist:
1. Lesbians Whores And Witches
2. Black Dog
3. My War
4. Heirs Of Doom
5. Ghost Army
6. Mother Black Sun

William Blake, os Provérbios do Inferno e a música

The Body of Abel Found by Adam and Eve

Pode-se dizer que William Blake foi um artista completo: poeta, pintor, ilustrador, místico e revolucionário; viveu os seus setenta anos com ideias e ações bem à frente da sociedade inglesa da primeira metade do século XIX. Defensor do individualismo, da liberdade sexual, de um papel mais relevante para a mulher, sua poesia influenciou poetas de grande importância para o avanço das concepções e técnicas poéticas.

Por ter uma série de visões radicais, o poeta foi chamado de louco por décadas, mas engana-se quem acredita que ele teve uma base educacional sólida: Blake jamais foi a escola. Mas isto não gerou qualquer ressentimento contra seus familiares; tanto é, que em Canções da Experiência, ele descreve um jovem estudante que é forçado a ir a escola por seus pais e solta o seguinte desabafo no conto: “A instrução não serve para nada. Considero-a um mal – o maior dos pecados”, firmando assim seu pensamento a favor do autodidatismo humano.

Seu gosto por redesenhar e transcrever gravuras veio desde a infância e foi desenvolvido antes mesmo de iniciar suas aventuras poéticas, procurando criar uma personalidade própria e ir contra o que chamava de “pintura acadêmica do século 18”, e que representava tudo o que ele detestava na época em que estava vivendo: o racionalismo e o materialismo. Veja abaixo algumas de suas obras

O Ancião dos Dias
Nebuchadnezzar
O Fantasma de uma Pulga
Newton

Blake escreveu The Marriage of Heaven and Hell no início de 1790, no ápice da Revolução Francesa, quando ele compartilhava as expectativas de vários conterrâneos radicais, que a Revolução era a violência universal que foi predita pelos profetas bíblicos como um estágio imediatamente anterior ao milênio. Com esse livro, o autor pretendeu escrever uma “nova Bíblia” – ou uma anti-Bíblia -, pois evoca, em certos momentos, uma “Bíblia do Inferno”. Profundo conhecedor e estudioso dos livros sagrados e da Cabala, Blake contesta a ordem de ambas as religiões, judaica e cristã, opondo-lhes, como poeta, uma transgressão inusitada.

O livro é dividido em cinco capítulos, com os dois primeiros trazendo uma espécie de “introdução do que é o bem e o mal” (que seriam necessários para o andamento do mundo); e no terceiro capítulo cria uma análise sobre o inferno – aparentemente é um lugar de tormentos, mas que na realidade é onde pensadores livres podem deleitar-se com a verdadeira experiência da existência. Já a quarta parte, na qual me estimulou a escrever este texto, traz uma série de metáforas que foram universalmente espalhadas pelo mundo posteriormente.

Blake, ainda em seu passeio pelo inferno, coleta alguns provérbios e afirma que estes são apenas ditados cativantes, com uma moral que ajuda as pessoas a se lembrarem do que é certo. Dependendo da visão de quem lê, pode ser interpretado como apenas uma sátira ou como pura blasfêmia, pois a Bíblia tem um livro inteiro só de provérbios, e Blake sabia já naquela época que seus leitores estariam familiarizados ao simbolismo positivista deles. A inclusão desses provérbios também pode ser enxergada como um ato do autor para manter uma relação com o mundo através de sua mente e os usa para defender a sua visão.

A banda feminina de pós-punk As Mercenárias musicou 80% dos provérbios em seu segundo disco, Trashland (1988), em português

Já o Ulver buscou algo ainda maior em 1998: musicou todos os cincos capítulos do livro do poeta no álbum de industrial metal Themes from William Blake’s The Marriage of Heaven and Hell, e o resultado pode ser ouvido em “Proverbs of Hell”

Proverbios do Inferno

No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.
A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.
Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.
O verme partido perdoa ao arado.
Mergulha no rio quem gosta de água.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.
Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.
A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.
A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.
As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.
Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.
Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez.
Nenhum pássaro se eleva muito, se se eleva com as próprias asas.
Um cadáver não vinga as injúrias.
O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.
Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.
A loucura é o manto da velhacaria.
O manto do orgulho é a vergonha.
As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.
O orgulho do pavão é a glória de Deus.
A luxúria do bode é a glória de Deus.
A fúria do leão é a sabedoria de Deus.
A nudez da mulher é a obra de Deus.
O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.
O rugir de leões, o uivar dos lobos, o furor do mar tempestuoso e da espada destruidora são fragmentos de eternidade grandes demais para os olhos humanos.
A raposa condena a armadilha, não a si própria.
Os júbilos fecundam. As tristezas geram.
Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.
O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.
O sorridente tolo egoísta e o melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que sejam flagelos.
O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.
A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes;
o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.
A cisterna contém; a fonte derrama.
Um só pensamento preenche a imensidão.
Dizei sempre o que pensas, e o homem torpe te evitará.
Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade.
A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.
A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.
De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.
Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.
Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da educação.
Da água estagnada espera veneno.
Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.
Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!
Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.
O fraco na coragem é forte na esperteza.
A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa.
Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.
Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.
A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.
Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.
Criar uma florzinha é o labor de séculos.
A maldição aperta. A benção afrouxa.
O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.
Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!
A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.
Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.
A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.
A Exuberância é a Beleza.
Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.
O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.
Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.
Onde o homem não está a natureza é estéril.
A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.
É suficiente! ou Basta.

Resenha: Skullflower/Mastery – Skullflower / Mastery (2013)

Este é um daqueles splits em que ambos os artistas visam apenas criar o melhor ruído imundo que o mundo já viu, e, como tal, há um público limitado neste campo. Muitas pessoas não estão dispostas a ouvir o que soa como um desastre de trem, mas podemos encontrar a beleza no caos, de alguma forma.

Skullflower é um projeto de música experimental liderado por Matthew Bower que já está a trinta anos em atividade, tendo relação com outros importantes nomes deste nicho caótico (entre eles Whitehouse, Coil e Ramleh); buscando sempre criar um lisérgico mundo necro e barulhento que, em contraste com muitos outros projetos industriais, nasceu dos instrumentos mais tradicionais do rock em vez de colagem de sons ou uso de sintetizadores. As três músicas do Skullflower não apresentam passagens rítmicas em particular, mas formam um longo (e esquizoide) tema ambient, com atmosferas semelhantes entre si. Drones de guitarra, sons em looping e um resultado que muitas vezes beira o harsh noise… Psicótico.

Então chegamos a quarta faixa, “Blood Electric”, cujo o responsável é o californiano Steve Peacock (que também atende pelo nome de Ephemeral Domignostika no Mastery), apresentando um monstro de 17 minutos onde o black metal é desconfigurado de sua faceta original e se aproxima do mathcore e do free jazz. Nos ruídos estridentes iniciais já é possível notar a complexividade e o dinamismo propostos, logo catapultados por uma fome e uma ferocidade absurdas, onde o músico joga riffs descontroladamente na música enquanto vômita frases com a mesma intensidade. Urgência angustiante, isso seria a melhor definição.

Tracklist:
1. Skullflower – Wolf Age
2. Skullflower – Red Crystal Serpent
3. Skullflower – Black Sunshine
4. Mastery – Blood Electric

O selo Dream Catalogue em 2016 e o vaporwave como arte conceitual da pós-internet

Teorizar o que de fato seria o vaporwave, como forma de expressão artística, é um tanto difícil, simplesmente por ser algo da pós-internet e com os seus criadores tendo visões tão díspares sobre a proposta do movimento. Seu ponto-chave é a reciclagem estética e uma nostalgia subjetiva, onde a parte gráfica é tão fundamental quanto a música apresentada. O uso de estilos musicais comerciais (como o pop e o R&B) de maneira sampleada se une aos visuais 8-bit, com imagens de softwares antigos, glitches caóticos e referências a grandes marcas ícones do capitalismo.

O (hiper)contexto em que esses elementos são expostos também faz com que o vaporwave seja uma crítica à sociedade consumista, buscando desvirtuar os elementos tradicionais da indústria, citados acima, a fim de gerar um conflito na mente do receptor – como se essa relação aleatória fosse uma overdose imaginária nunca antes sentida. Essa junção de simbologias pode ser vista como uma hiper-realidade (quando há a incapacidade de distinguir o que é real e o que é uma simulação da realidade), podendo ser explicada de forma prática pelo teórico francês Jean Baudrillard, utilizando a Disneylândia como exemplo: “a Disney propõe-se a ser um mundo infantil, a fim de nos fazer acreditar que os adultos estão em outro lugar, no mundo ‘real’”. Essa ideia foi melhor explorada baseando-se nos conceitos do vaporwave por Thiago Miazzo, em um ensaio sobre o tema que pode ser lido aqui e aqui.

Real ou fantasia?

Musicalmente falando, para começar a entender esse labirinto, tome como base os álbuns Eccojams Vol. 1 (2010), de Chuck Person, Far Side Virtual (2011), de James Ferraro e Floral Shoppe (2011), de Machintosh Plus; apesar de ser ainda possível encontrar ramificações que se diferem destes, como o Future Funk e dos lançamentos do selo Dream Catalogue. E esta gravadora, fundada em 2014, merece grande destaque dentro desse universo, pois, a meu ver, é a responsável por trazer artistas que buscam novos caminhos dentro dessa estética e assim se torna o alicerce para o futuro do vaporwave como música.

“o nascimento de um novo dia”

Apesar de não época já ter mais de 50 álbuns em seu catálogo – pra se ter a dimensão da quantidade de material que se é produzido -, o primeiro foco de popularidade ao Dream Catalogue se deu após uma matéria na Rolling Stone que envolvia o projeto 2814, gerando também aclamação em diversas mídias destinadas a sons “experimentais”, além de profundas discussões em fóruns na internet. Pensando nisso, resolvi indicar dois álbuns que saíram recentemente pelo selo:

WosX – Brasil World Cup 2034

O conto, que teoricamente serve como completo na experiência de ouvir o álbum – pela leitura se encaixar nos temas abordados nas faixas -, traz mais dúvidas do que respostas; por ser uma narrativa com tantos elementos brasileiros atuais, escrita por um canadense e baseada obviamente em 2034. O som é o que mais interessa: beats eletrônicos, com samples captados da copa do mundo de 2010 e 2014, áudios com falas em português, instrumentos de samba e sons ambiente. Talvez, pelo conceito vaporwave, esse é um álbum feito em 2016 e para ser ouvido em 2034.

2 8 1 4 – Rain Temple

2814 é um projeto nascido da parceria entre Telepath e o produtor britânico Hong Kong Express. Rain Temple pode ser encarrado como a continuação do aclamado 新しい日の誕生/Birth of a New Day, inclusive trazendo as mesmas referências na capa, além da atmosfera densa e peculiar. A forma com que as fields recordings são encaixadas nas ambiências “futuristas” em “Eyes of the Temple” e “Lost in a Dream”, principalmente, fortalece o clima melancólico do som – e isso talvez seja a maior virtude desde o álbum anterior.

Aquela sensação de não saber por onde pisar, pois a visão está nublada. O frio da vida urbana, a solidão, a chuva que cai lá fora sem precisar de motivo… É como um lugar sagrado distante, em uma realidade que não podemos perceber com nossos sentidos limitados.

Resenha: Perturbator – The Uncanny Valley (2016)

“High tech, Low life”, essa é a principal descrição de um ambiente cyberpunk. As realidades distópicas surgidas nesse subgênero de ficção científica podem ser descritas como lugares controlados por tecnologias da informação, num ambiente de dominação ou destruição da sociedade, além da revolta de seus cidadãos e da degradação do estilo de vida. As sociedades são marginalizadas em sistemas avançados culturalmente, mas o povo é controlado por um governo opressivo, uma religião fundamentalista, um computador ou sistema dominador, ou um conjunto de corporações.

Baseando nessa estética, surge nos anos 2000 o synthwave (ou retrowave); buscando uma ligação entre referências como o filme Blood Runner e as composições de John Carpenter,  Goblin e Tangerine Dream, porém, carregadas de características clichês oitentistas (vocal com reveb, sintetizadores analógicos extremamente nítidos e bateria eletrônica pulsante). Alguns nomes tem já destaque nessa “cena” – tal como Gost e Carpenter Brut -, mas é Perturbator (pseudônimo do francês James Kent) que ganhou maior notoriedade, graças a sua presença na trilha-sonora da série de games Hotline Miami.

Assim como seus antecessores, The Uncanny Valley é uma viagem aterrorizante através de um mundo de pesadelos, pegando a pós-guerra contra as máquinas referenciadas no álbum Dangerous Days (2014) como base. Falando propriamente da parte musical, de cara temos uma frenética massa de sintetizadores sobreposta em “Neo Tokyo”, pincelando qual será o ritmo majoritário até o final. Há algumas exceções, a exemplo do clima jazzístico encorporado em “Femme Fatale”; ou de “Venger” e “Sentient”, mais voltadas ao eletro house. E sempre é bom lembrar que James Kent é ex-guitarrista de uma banda de black metal, portanto não se surpreenda com o instrumento distorcido em “Diabolus Ex Machina” e ainda, se sua imaginação for mais inventiva, ao fazer o exercício de substituir os sons eletrônicos por melodias tradicionais do metal, poderá notar uma certa familiaridade nas composições (como foi citado pelo próprio criador em entrevista ao Noisey) – e talvez seja esse o motivo do álbum ter caído no gosto dos headbangers.

Dito isto tudo, a música do Perturbator trabalha principalmente sobre a atmosfera e como a música faz você se sentir. Trata-se de sons que evocam ruas de uma metrópole higienizada de néon e fumaça, de forma cinematográfica, trazendo ainda um frescor penetrante da EDM. É essa mágica viagem ficcional de volta ao tempo, para lisérgicos anos 80, recriando uma mistura alucinante a partir da perspectiva de elementos que nunca existiram.

Tracklist:

  1. Neo Tokyo
  2. Weapons for Children
  3. Death Squad
  4. Femme Fatale (feat. Highway Superstar)
  5. Venger (feat. Greta Link)
  6. Disco Inferno
  7. She Moves Like a Knife
  8. Sentient (feat. Hayley Stewart)
  9. Diabolus Ex Machina
  10. Assault
  11. The Cult of 2112
  12. Souls at Zero (feat. Astronoid)
  13. The Uncanny Valley

10 álbuns nacionais lançados no primeiro semestre de 2016 que você precisa ouvir

Como nos últimos meses eu ando meio desleixado no que se refere a publicar posts novos no blog, resolvi mandar uma lista logo com dez álbuns, uma quantidade superior se comparado a quando eu resolvi fazer algo semelhante em 2015. Mas veja bem, apesar de serem dez álbuns, muitos outros dentro dos subterrâneos da música brasileira ficaram de fora; isto é, os selecionados aqui são novamente os que eu achei mais interessante dentro da subjetividade do meu gosto.

Afro Hooligans – Corpo Fundo

O trio paulistano formado por Marcos Felinto, Everton Andrade e Guilherme Henrique se autodenomina como um “projeto xamânico de música eletrônica experimental” e ouvindo este novo álbum é possível entender o porque. Tudo aqui – incluindo o conceito de complexidade e abundância da natureza humana, presente no título – parece ter sido proposto dentro de uma grande trip psicodélica (daquelas que te fazem pensar no sentido da tua própria existência), e essa mistura imperfeita de ruídos com compassos house foi criada de uma maneira que você de fato sente-se abraçado por um misticismo primitivo.

Cadu Tenório & Thomas Rohrer – Fórceps

Fórcepss.m. Instrumento cirúrgico com que se extrai o feto do útero; pinça ou tenaz com que se agarram os corpos que se querem extrair. (Do Lat. fórcipe)

Este “parto difícil”, que o título do registro insinua, tem a ver não só com as duas sessões gravadas e que foram perdidas antes daquela que forma Fórceps,  mas também ao simples fato de que todo tipo de improvisação é algo extremamente complexo. O que o produtor Cadu Tenório e o rabequeiro e saxofonista suíço (radicado brasileiro) Thomas Rohrer fazem é criar a combinação de dois mundos opostos – coisa que Cadu busca a algum tempo -, onde o elo entre esses dois é a eterna aprendizagem de recriar a si mesmo.

Cássio Figueiredo – Presença

Talvez o grande ponto-chave que torne Presença um álbum tão forte esteja no fato de quê quem o ouve possa ter uma percepção dessa “presenção” totalmente diferente de qualquer outra pessoa. Eu senti que os momentos mais calmos são como o frio da penumbra da noite, e os cortes abruptos são como um clarão se aproximando em minha direção; mas veja bem, como eu disse, se você buscar ouvir as faixas, provavelmente terá alguma sensação diferente. O nome de cada som e o som em si também são grandes paradoxos que engrandecem ainda mais o conceito por trás.

Ruídos abafados, vozes, manipulação de cassetes … Tudo soa tão imprevisível e fantasmagórico, mas ao mesmo tempo afetuoso e vivo.

Deaf Kids – Configuração do Lamento

O lamento em questão aqui é a cultura da exploração da América Latina e a forma como esses cariocas enfiam o de dedo nessa ferida é através de uma surpreendente desconstrução do crust. E bom, é inegável que os tribalismos na bateria e os murmúrios de Dovglas Leal trazem também um pouco desse sofrimento… As dissonâncias e a sujeira abrasiva não dão a você uma dor física como a de quem sangrou e não teve como estancar, mas internamente dizimam o seu ego e te jogam uma verdade: o teu lamento de hoje é tão sólido quanto o pó.

Se você está afim de algo agressivo para levantar o astral da sua manhã, coloque esse split bem alto. A primeira parte do disco é a dos paulistas do Desalmado, que apesar da brutalidade, consegue encaixar uma cadência ao som; enquanto a parte dos catarinenses é um grindcore misturado com death metal e crust que é a pura violência sonora. Como de praxe, o extremismo também está presente nas letras de ambas as bandas, com fortes críticas à opressões sociais.

Giant Gutter From Outer Space – Black Bile

Já vi o esse duo curitibano ao vivo  e posso afirmar pra vocês que a coisa toda torna-se ainda mais intensa. O que o Giant Gutter From Outer Space faz em seu primeiro full-lenght é renovar as entranhas que formam a base do seu som tortíssimo; onde cada um dos músicos busca criar algo oposto em relação ao outro, só que, ao mesmo tempo, tudo está conectado. É metal jazzístico que não se importa em soar massivo ou técnico, apenas fluir por si só. Lembrando que o trabalho da dupla Johnny R. Rosa (bateria) e Hernan Borges de Oliveira (baixo) saiu novamente pela selo Sinewave.

God Pussy – Desaparecidos

Para aqueles que acompanham o trabalho do projeto carioca God Pussy, já é fácil notar que Jhones Silva aprecia entregar a experiência mais desconfortável possível a quem está disposto a ouvir. E isso vai muito além da corrosão sonora, pois ele normalmente também costuma retratar, na temática dos seus lançamentos, as angústias do submundo esquecido pela sociedade. Desaparecidos é síntese do desespero humano, como pode ser ouvido logo na primeira faixa, com o sofrimento de mães que perderam o sentido da vida após o sumiço de seus filhos. O release descreve a obra de forma perfeita:

“Pessoas desapareceram – Não existem rastros ou paradeiros – iniciando um mistério duradouro – muitas vezes sem solução – criando uma desestrutura familiar…
Desaparecidos: Onde estão? Pra onde foram? São perguntas sem respostas, são dúvidas cruéis do que pode ter ocorrido, são lembranças vagas e sofrimentos eternos aos familiares… Casos sem respostas apenas dúvidas e estatísticas.”

Gustavo Jobim – Dezoito

Conheci Gustavo pelo álbum Inverno (2014), e bem, se aquela capa gélida representava de maneira perfeita o clima das composições, Dezoito também não foge disso: a capa ensolarada é o frescor e a avidez que o músico encontrou, involuntariamente ou não, aqui. Isso é possível ser ouvido em “Heart and Sound and Soul and Vision” (cujo título é uma junção de uma música do Joy Division e outra de David Bowie), que contém uma contagiante harmonia em espiral. Podemos sentir as influências da Berlin School de Klaus Schulze e Tangerine Dream ao ouvir “The Road”, ou ainda compreender que o título de “For Richard Pinhas” não é apenas um mero detalhe. Entre ruidosas percussões metálicas e sintetizadores minimalistas, temos uma bela ode ao progressive eletronic da déada de 1970.

Metá Metá – MM3

O Metá Metá aos poucos vem ganhando certa popularidade em meios não tão alternativos, porém, o reconhecimento ao trabalho do trio ainda é pequeno se comparado a riqueza e a simbiose musical que vem se renovando a cada lançamento. Aqui há uma urgência enorme – tanto é que foi gravado em apenas três dias – e, inclusive, dá para afirmar que este é o álbum mais pesado e ruidoso que Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França já lançaram juntos. O som é metamorfo, desde o vasta carga jazzística do sax de França, ao incrível repertório de Kiko na guitarra, passando pelas influências tão diversas (e que se fundiram tão homogeneamente) que o baixo de Marcelo Cabral e a bateria de Sérgio Machado trouxeram. Free-jazz, candomblé, samba, art-punk… Tudo é feito e misturado de uma forma muito forte e viva.

Romulo Fróes – Rei Vadio

Rei Vadio é o primeiro álbum de Romulo Fróes como intérprete e homenageia Nelson Cavaquinho justamente no ano em que sua morte completa 30 anos. Entre escolhas de canções menos óbvias e tantas outras deixadas de lado por serem exclusivamente o reflexo de Nelson, Romulo consegue desconstruir sem borrar a beleza melancólica das obras originais. E para tal feito, conta com a ajuda dos seus parceiros de longa data: Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Thiago França – este último com um solo free jazz de sax esplendoroso em “Mulher Sem Alma” -; além das ilustres participações de Dona Inah (“Eu E As Flores”), Ná Ozzétti (“Caminhando”), Criolo (“Luz Negra”) e da Velha Guarda Musical da Nenê de Vila Matilde (Vou Partir”). Difícil transcrever em palavras a força que esse tributo possui; reinterpretações que estão naquela linha tênue entre o tradicional e o transgressor… Não é para qualquer um.