Arquivo da categoria: Black-Metal

Resenha: Skullflower/Mastery – Skullflower / Mastery (2013)

Este é um daqueles splits em que ambos os artistas visam apenas criar o melhor ruído imundo que o mundo já viu, e, como tal, há um público limitado neste campo. Muitas pessoas não estão dispostas a ouvir o que soa como um desastre de trem, mas podemos encontrar a beleza no caos, de alguma forma.

Skullflower é um projeto de música experimental liderado por Matthew Bower que já está a trinta anos em atividade, tendo relação com outros importantes nomes deste nicho caótico (entre eles Whitehouse, Coil e Ramleh); buscando sempre criar um lisérgico mundo necro e barulhento que, em contraste com muitos outros projetos industriais, nasceu dos instrumentos mais tradicionais do rock em vez de colagem de sons ou uso de sintetizadores. As três músicas do Skullflower não apresentam passagens rítmicas em particular, mas formam um longo (e esquizoide) tema ambient, com atmosferas semelhantes entre si. Drones de guitarra, sons em looping e um resultado que muitas vezes beira o harsh noise… Psicótico.

Então chegamos a quarta faixa, “Blood Electric”, cujo o responsável é o californiano Steve Peacock (que também atende pelo nome de Ephemeral Domignostika no Mastery), apresentando um monstro de 17 minutos onde o black metal é desconfigurado de sua faceta original e se aproxima do mathcore e do free jazz. Nos ruídos estridentes iniciais já é possível notar a complexividade e o dinamismo propostos, logo catapultados por uma fome e uma ferocidade absurdas, onde o músico joga riffs descontroladamente na música enquanto vômita frases com a mesma intensidade. Urgência angustiante, isso seria a melhor definição.

Tracklist:
1. Skullflower – Wolf Age
2. Skullflower – Red Crystal Serpent
3. Skullflower – Black Sunshine
4. Mastery – Blood Electric

Anúncios

Resenha: Batushka – Litourgyia (2015)

O black metal, em sua forma clássica, sempre buscou ser, de alguma maneira, extremo. Abraçar o paganismo, o ocultismo e o satanismo foi basicamente uma forma de contrariar os ‘valores tradicionais humanos’, muitos desses ligados a religião cristã. Essa contestação, aliada a uma forma de metal essencialmente crua, gerou um gênero vanguardista. E que tal se uma banda polonesa utilizasse cânticos bizantinos em suas músicas?

Apesar do Cult of Fire e do Death Karma já terem utilizados cantos religiosos em composições extremas, aqui isso é feito em um nivel consideravelmente avançado. Como a própria gravadora Witching Hour Productions descreveu no release: o Batushka é um projeto polonês com músicos incógnitos que são bem conhecidos no país; ou seja, todo o conceito e musicalidade foram muito bem pensados, por pessoas que estão longe de qualquer amadorismo.

Como o título sugere, o álbum deve ser encarado como uma liturgia: ouvido do início ao fim, sem pausas. O motivo principal está em”Yekteniya 1″, que de imediato já fixa a atenção do ouvinte pela forma como é construída, e gera a curiosidade para saber como as outras sete faixas serão desenvolvidas e se a proposta não ficará maçante. Você até pode procurar deslizes, mas as músicas soam muito uniformes, com um equilíbrio perfeito entre os trechos doom e momentos realmente black metal. Sinos sutis de igreja e cânticos ortodoxos, cantados no idioma eslavo, não são colocados alí de uma forma errônea; tudo é bem genuíno e age como um acompanhamento perfeito para este ambiente inimitável.

Citar destaques é uma tarefa complicada, pois cada ouvinte provavelmente vai ser cativado por uma faixa diferente; mas esquecendo a homogeneidade sonora, posso citar “Yekteniya 3”, que apresenta vocais limpos e guturais atacando paralelamente e uma tempestade instrumental que beira ao caos; até desembocar na quarta música, que apesar de estrutura simples, trabalha em espiral e te prende até o fim. “Yekteniya 7” que não inclui gritos ou rosnados, é uma peça que pode ser resumida como o puro ecstasy bizantino, levando a exaustão através do seu intenso final. É, realmente estes desconhecidos poloneses encontraram o caminho para alcançarem a perfeição da blasfêmia esotérica.

Tracklist:
1. Yekteniya 1
2. Yekteniya 2
3. Yekteniya 3
4. Yekteniya 4
5. Yekteniya 5
6. Yekteniya 6
7. Yekteniya 7
8. Yekteniya 8

Resenha: Caïna – Setter of Unseen Snares (2015)

Transcender as fronteiras, trazer opostos musicais, e transportar o ouvinte para um admirável mundo novo, é isso que o black metal deve ser. Álbuns que conseguem ser sublimes e aterrorizantes são de uma raridade incrível; e esses fatores combinados me encantam profundamente no black metal, e também é o que leva o gênero a ser uma grande ferramenta de vanguarda.

Há uma qualidade cinematográfica em “Setter de Unseen Snares”; orquestral na forma de arranjos variados e texturas sonoras que fluem como um vento calmo um pouco antes de uma tempestade. Em seguida, as seções mais rápidas criam um toque minimalista de notas e gritos que permanecem como os únicos remanescentes do velho Caïna.

“Setter of Unseen Snares” é simultaneamente ambicioso e amplo, conceitualmente e estilisticamente, por narrar o conto da última família na terra e as suas tentativas de escapar da força apocalíptica de um asteróide que se aproxima. “Eu acho que a consciência humana é um trágico passo em falso na evolução”, diz um trecho presente em “Introduction” – e dito originalmente pelo investigador Rust Cohle, no primeiro episódio da série de tv americana True Detective. Os poços de desolação que este registro é capaz de esculpir no coração do ouvinte são inigualáveis.

É necessário ressaltar o ótimo trabalho do inglês Andrew Curtis-Brignell, que carrega o projeto como membro único a 11 anos, entre lançamentos de EPs, splits e demos. Embora seja um estudante de teologia satanista e tenha as suas raízes na cacafonia da cena norueguesa noventista, Andrew não segue fielmente apenas esses elementos. Há várias influências de punk, post-rock e shoegaze presentes, mas o que de maneira alguma torna o som menos rústico e sujo.

“I Am the Flail of the Lord” é uma música muito acentuadamente punk, mas com um certo clima dark; onde as guitarras aparecem isoladas e a bateria é cru e seca. Já a faixa-título segue a mesma linha, porém mais intensa e trazendo um turbilhão emocional único. O clima e as texturas criadas em “Vowbound” são até interessantes, mas “Applicant / Supplicant” consegue ser mais intrigante por nos levar a uma viagem imaginária de como o Xasthur soaria se fosse uma banda post-punk, só que adicionando um pouco da psicodelia negra do Nachtmystium.

O ápice do álbum está em “Orphan”, uma melancólica construção de 15 minutos que começa com drones típicos do Godspeed You! Black Emperor e abrange elementos totalmente distintos, – como rock gótico, hardcore e post-black metal – de uma maneira coesa e que cresce a cada incursão. As colaborações vocais de Vice Martyr (Hateful Abandon) na primeira parte da faixa e Lawrence Taylor (Cold Fell) na segunda – este último que passou a ser membro permanente do Caïna – são precisas, trazendo um incrível drama ao ouvinte.

Tracklist:
1. Introduction
2. I Am the Flail of the Lord
3. Setter of Unseen Snares
4. Vowbound
5. Applicant / Supplicant
6. Orphan

Resenha: Mastery – Valis (2015)

“Valis” é um brilhante ensaio incansável que explora alguns dos limites do avant-garde black metal. Os 41 minutos deste álbum abrangem um número absurdo de seções rítmicas (“mais de 100 riffs por música”, indicado na promoção, não é nenhum exagero), onde é necessário uma audição completa, devido a sua urgência implacável. Não há um momento no álbum que não tenha pressa, é como uma psicose maníaca e insistência. A maneira que a urgência sonora é utilizada em todo o registro cria o efeito de uma serra elétrica, implacável no seu resultado e firme na entrega.

Nenhuma das canções têm qualquer padrão de andamento normal para os ouvintes se sentirem confortáveis, com seus riffs que vão e vem sem qualquer aviso, mudando o ritmo de ‘incrivelmente rápido’ para ‘pesado ​​e lento’ em segundos. O clima é tão frenético que faz parecer que bandas como o Suffocation toquem funeral doom, se formos botar em comparação.

Por trás disto está o multi-instrumentista californiano Ephemeral Domignostika, que se desdobra ao cantar e tocar todos os instrumentos aqui. A primeira faixa, “V.A.L.I.S.V.E.S.S.E.L.”, é uma longa construção de caos e violência picotada em 18 minutos, onde o resultado parece ser a colagem de uma dúzia de músicas sobrepostas; isto é uma verdadeira tormenta. Imagine uma embarcação perdida em alto mar e lutando contra uma tempestade que ataca de todas as formas, essa é a paisagem sonora apreciada aqui. Já “A.S.H.V.E.S.S.E.L.” e “I.L.K.S.E.E.K.E.R.” são curtos interlúdios que somadas têm três minutos, mas que conseguem manter um clima perturbador.

Não é loucura alguma afirmar que há uma boa dose de free jazz nas composições, devido a imprevisibilidade gigantesca. É como se batessemos de frente com uma versão cacofonica de Ornette Coleman, surgida de algum lugar frio e imundo. Além das músicas terminarem abruptamente, a produção é intrigante de tão tenebrosa – e chamá-la de “densa” é mero eufemismo. É tão desagradável que chega a ser contemplativo.

Tracklist:
1. V.A.L.I.S.V.E.S.S.E.L.
2. A.S.H.V.E.S.S.E.L.
3. L.O.R.E.S.E.E.K.E.R.
4. I.L.K.S.E.E.K.E.R.
5. S.T.A.R.S.E.E.K.E.R.