Resenha: Goat – Commune (2014)

A internet é a maior vilã e é a maior heroína do século XXI. Esta parece ser uma frase simplória e rasa, mas é o retrato dos tempos modernos. Ao mesmo tempo em que ela pode diminuir o contato social, devido as inúmeras tentações virtuais (ou apenas “ações sugadoras de tempo”), ela pode também encurtar distâncias, acabar com fronteiras. E só assim conheceriamos o Goat: uma banda surgida em um vilarejo sueco chamado Korpilombolo, de 529 habitantes.

Ser um grupo musical surgido no meio do nada pode não significar muita coisa, mas um dos grandes charmes desta banda é que ela é inspirada na mitologia nórdica e que ela é pensada como uma espécie de ritual voodoo. Aqui os membros não têm nomes e se vestem e usam máscaras como se fossem uma tribo. Parece exótico? Sim, não é apenas exótico, é folclórico. Porém, para sustentar todo esse carnaval existe uma musicalidade extremamente sólida, e este é o ponto principal aqui.

O termo “World Music”, que também serve para dar título a estreia do Goat (2012), faz sentido quando é aqui encaixado. Além de apresentar essas influências escandinavas nada convencionais, a banda ainda traz elementos de psicodelia britânica, sons vindos do mais arenoso sudoeste asiático e muita música africana. A reunião dessas etnias cria algo experimental e ácido, envolto sobretudo em um misticismo que necessita ser explorado.

“Talk to God”, com quase sete minutos, começa com o repicar lento dos sinos, a chamada solene para a adoração, e então a guitarra hipnótica toma o lugar. Como a própria banda, é uma canção urgente e intensa, exigindo atenção e ainda permanecendo muito misteriosa em seu núcleo. Todas as músicas fazem a trilha de um ritual espiritual; algumas próximas do acid-rock, como “Words” – com uma terrível energia; outras com elementos orientais (“The Light Within”); drones selvagens e libertadores (“Gathering of Ancient Tribes”); ou simplesmente psicodélicas, como “Hide From the Sun”, e estas viagens neuróticas geralmente não têm nacionalidade. E nem precisam ter.

Tracklist:
1. Talk To God
2. Words
3. The Light Within
4. Travel The Path Unknown
5. Goatchild
6. Goatslaves
7. Hide From The Sun
8. Bondye
9. Gathering Of Ancient Tribes

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Resenha: Ides of Gemini – Old World New Wave (2014)

Assim como The Devil’s Blood e Jess and the Ancient Ones, o Ides Of Gemini é uma banda que também apresenta vocais femininos e foca no oculto. O trio formado por Sera Timms (vocal e baixo), Jason Bennett (guitarra) e Kelly Johnston-Gibson (bateria), tinha a missão de afirmar-se musicalmente e consolidar a sua proposta. A estréia, “Constantinopla” (2012), apresentava os instrumentos minimalistas e crus do black metal noventista, porém trazendo principalmente elementos de doom, post-rock e shoegaze; com o resultado soando despretensioso.

“Old World New Wave”, lançado pela Neurot Recordings, gira em torno da voz de Sera Timms; não pela falta de qualidade dos outros membros, mas sim pela excessiva técnica de Sera, que assombra com o seu vocal com momentos etéreos e quase operísticos. Bennett é uma incrível máquina de riffs densos, muito influenciado por Victor Griffin do Pentagram. Já a baterista soa simplista na maioria das vezes, mas nada muito prejudicial.

As letras falam de dualismos: forças opostas (yin-yang) com seus conflitos psicológicos e cada uma movida por um ideal. O foco é realmente a escola da psicologia analítica de Carl Jung, que descreve determinadas estruturas de transformação psico-espiritual. “May 22, 1453” pode resumir toda essa transgressão emocional; sendo uma canção ritualística sobre o eclipse lunar que teria previsto a queda de Constantinopla na mesma data.

“The Adversary” é um dos poucos momentos onde a guitarra de Bennett vence os vocais esotéricos de Sera; onde baixo e bateria se entrelaçam e a guitarra brilha de uma forma suja e pesada. As influências de Pentagram aparecem mais nitidamente em”Black Door” e “Fememorde”, que de fato são Doom. Há ainda atmosferas distintas, como a épica “White Hart” e os zumbidos de “The Chalice & The Blade”; mas as últimas duas faixa decepcionam a aura ocultista do registro, parecendo que não foram desenvolvidas corretamente.

Tracklist:
1. Black Door
2. The Chalice & The Blade
3. Seer Of Circassia
4. White Hart
5. May 22, 1453
6. The Adversary
7. Fememorde
8. Valediction
9. Scimitar

Resenha: Today Is The Day – Animal Mother (2014)

A diferença entre música e ruído é subjetiva. A situação tornou-se ainda mais complexa após a invenção da “música noise” a algumas décadas atrás – a forma de vanguarda musical que usa elementos “não-musicais” para compor obras musicais. A questão psicológica e filosófica não é quais tipos de sons são considerados ruído ou música; mas sim, o que isto pode causar na mente. E sim, nunca é uma jornada tranquila.

A imprevisibilidade nas ações é algo comum em quem tem distúrbios mentais; mas isto não é um sinal de loucura, apenas é um sintoma de quem tem uma mente complexa e inquieta. E quando esta imprevisibilidade vem em forma de música, é apenas mais uma forma de testar a nossa capacidade de compreensão sobre a consciência humana e como isto pode nos tocar através de sensações.

Mestre nesse tipo de provocação psicótica, o Today Is The Day é uma banda formada em 1992, onde mudanças estilísticas e na formação ocorreram em cada álbum; porém, sempre com Steve Austin tomando as rédias. “Animal Mother” é o décimo registro da carreira, o primeiro pelo selo da Southern Lord; e soando intensamente lamacento e libertador.

Se a faixa-título tem momentos e ritmos ímpares, “Disciple” é efetivamente feroz e enquadra o ouvinte em uma sala úmida; e a progressão de “Sick Of Your Mouth” é um belo passeio pelo lodo das entranhas cerebrais. Contrabalançando tudo, “Outlaw” tem duas versões: uma acústica, profunda e que parece levar a uma terapia condenatória; e uma elétrica, ainda mais desafiante. Outra música que merece destaque é “Bloodwood”; semi-acústica, arrastada e reflexiva. Certamente é um registro que precisa ser ouvido de forma integral, e pelo menos uma das faixas vai te puxar para dentro.

Tracklist:
1. Animal Mother
2. Discipline
3. Sick Of Your Mouth
4. Imperfection
5. Law Of The Universe
6. Outlaw
7. Godcrutch
8. Divine Reward
9. Masada
10. Heathen
11. Mystic
12. The Last Strand
13. Outlaw
14. Bloodwood

Resenha: Trophy Scars – Holy Vacants (2014)

Formado em 2002, na estado de New Jersey, o Trophy Scars é uma banda americana de Post-Hardcore que sempre carregou uma intensa dose de emotividade, além de várias alterações em sua sonoridade e algumas mudanças de membros.

As expectativas de muitos foram altas após o EP “Never Born, Never Dead” (2011), último trabalho do grupo, trazendo incríveis doses de neo-psicodelia e Blues. A temática ficava centrada em questões existencialistas e experiências de reencarnação.

Mas em “Holy Vacants”, temos um conceito que é verdadeiramente um roteiro cinematográfico; entranho em alguns momentos, mas mescla religião e mitologia de uma maneira fixadora. Tudo acontece em volta de um casal de amantes que busca a fonte da imortalidade; essa qual viria em um incansável abatimento de anjos, usando uma substância chamada Qeres, onde assim poderiam beber o sangue das criaturas divinas e buscar a vida eterna.

Toda essa overdose de bizarrices já seria suficiente para o álbum dar errado, mas não, por mais que as letras soem bobas no papel, elas se encaixam perfeitamente com a ideia musical, trazendo o medo e a escuridão para quem acompanha firmemente o desenrolar do registro.

A voz de Jerry Jones é um grande destaque, ficando entre a fúria e a tensão, em alguns momentos lembrando Tom Waits (como em “Qeres”). O álbum atinge o seu auge com a gloriosamente cativante “Crystallophobia”, que segue sólida em todo o seu tempo. Com alguns momentos acelerados, “Gutted” é facilmente a música mais variado do álbum; e “Everything Disappearing” cresce a cada minuto, trazendo riffs de Blues e explodindo em vocais femininos, fazendo o clímax para
terminar o álbum através da calma e bela “Nyctophobia”.

Tracklist:
1. Extant
2. Qeres
3. Archangel
4. Crystallophobia
5. Burning Mirror
6. Hagiophobia
7. Chicago Typewriter
8. Vertigo
9. Gutted
10. Every City, Vacant
11. Everything Disappearing
12. Nyctophobia

Resenha: Yossi Sassi – Desert Butterflies (2014)

Yossi Sassi foi o fundador, guitarrista e uma das principais mentes criativas do Orphaned Land, banda israelense que ganhou grande destaque por mesclar o Heavy Metal com a música tradicional árabe. Yossi saiu do grupo no início de 2014, após o lançamento de “All Is One”.

Se os motivos de sua saída foram divergências musicais, isso pode fazer sentido ao ouvir o seu segundo álbum solo, que quebra qualquer limite sonoro que a sua antiga banda poderia ter. Aqui, a música oriental de instrumentos como bouzouki e oad, duela principalmente com sons guitarristícos de jazz e folk.

Se de cara “Orient Sun”, com a participação de Marty Friedman, nos remete a uma levada nipônica, a faixa-título tem um pé na surf music – inclusive, lembrando Dick Dale -, contrastando com o sempre presente bouzouki. “Fata Morgana” talvez seja a única canção com uma semelhança remota com o Orphaned Land, contando com guitarras enérgicas e tendo a colaboração de Ron ‘Bumblefoot’ Thal.

“Believe” é agradável e suave, cheia de sons acústicos e trazendo a italiana Mariangela Demurtas (Tristania, Moonspell) recitando letras sobre um futuro esperançoso em sua língua materna. Mas canções com a complexidade rítmica do jazz se destacam mais; caso de “Neo Quest” e “Azul” – esta última com uma tristeza sonora única, derramando um solo cuja melodia é riquíssima.

Tracklist:
1. Orient Sun
2. Fata Morgana
3. Neo Ques
4. Azadi
5. Believe
6. Desert Butterfly
7. Inner Oasis
8. Shedding Soul
9. Jason’s Butterflies
10. Azul
11. Cocoon

Resenha: Have A Nice Life – The Unnatural World (2014)

Criar um termo comparativo sobre o que é o som do Have A Nice Life é quase impossível. Flertando com o post-punk, shoegaze, drone, post-rock e industrial, esse duo traz ecos de influências distintas e únicas, como Joy Division, Swans, Sunn O))), Sonic Youth e My Bloody Valentine.

Formado em 2000 por Dan Barrett e Tim Macuga no estado americano de Connecticut, este projeto assustou os mais ligados na cena experimental em 2008. “Deathconsciousness” foi um disco absurdamente obscuro e gravado de forma caseira, com 90 minutos perturbadores, divididos em duas partes. No lançamento ‘físico’, em 2009, um essencial livreto de 70 páginas veio junto para explicar o álbum – e talvez até deixando mais questões no ar. Alí, encontra-se uma profunda análise sobre Antíoco, fundador de uma seita bizarra do cristianismo no século 13, que equivale essencialmente a um culto da morte. Também é acrescentado no meio disto o slogan do grupo: “a morte é a verdade e a verdade é a morte”. Porém, tudo isso não passa de uma obra-prima da depressão.

A missão de “The Unnatural World” era seguir esta mesma linha de amargura, só que agora enxugada pela metade do tempo, trazendo assim uma solitária descida do abismo ao inferno menos devastadora. Uma prova disso é a empolgante “Defenstration Song”, que soa como um ‘Joy Division do século 21’, e que apresenta estrofes com letras existencialistas: “Eu nunca pensei que eu iria levar esta vida inquieta / Pensei em murchar para baixo, em sacrifício / Não há nada que eu possa fazer para que isto pare”.

Drones ruidosos constroem camadas na curta “Unholy Life”. Já “Guggenheim Wax Museum” é como uma marcha fúnebre percussiva envolta a um redemoinho de sintetizadores. E se a fantasmagórica “Burial Society” tem a capacidade de unir ideias e sons díspares, “Cropsey” apresenta uma lenta e amendrotadora cacofonia: trechos de uma entrevista com um paciente chamado Johnny, do macabro instituto mental Pennhurst, em 1968; berros e pedidos por ajuda são arrepiantes.

Um lindo trabalho de tons escuros. Triste, dramático e emocionante, tudo aqui consegue ser estranhamente desagradável e acessível. Parece que foi moldado especialmente para quem é feliz tendo uma perspectiva negativa da vida.

Tracklist:
1. Guggenheim Wax Museum
2. Defenestration Song
3. Burial Society
4. Music Will Untune the Sky
5. Cropsey
6. Unholy Life
7. Dan and Tim, Reunited by Fate
8. Emptiness Will Eat the Witch