Resenha: Mastery – Valis (2015)

“Valis” é um brilhante ensaio incansável que explora alguns dos limites do avant-garde black metal. Os 41 minutos deste álbum abrangem um número absurdo de seções rítmicas (“mais de 100 riffs por música”, indicado na promoção, não é nenhum exagero), onde é necessário uma audição completa, devido a sua urgência implacável. Não há um momento no álbum que não tenha pressa, é como uma psicose maníaca e insistência. A maneira que a urgência sonora é utilizada em todo o registro cria o efeito de uma serra elétrica, implacável no seu resultado e firme na entrega.

Nenhuma das canções têm qualquer padrão de andamento normal para os ouvintes se sentirem confortáveis, com seus riffs que vão e vem sem qualquer aviso, mudando o ritmo de ‘incrivelmente rápido’ para ‘pesado ​​e lento’ em segundos. O clima é tão frenético que faz parecer que bandas como o Suffocation toquem funeral doom, se formos botar em comparação.

Por trás disto está o multi-instrumentista californiano Ephemeral Domignostika, que se desdobra ao cantar e tocar todos os instrumentos aqui. A primeira faixa, “V.A.L.I.S.V.E.S.S.E.L.”, é uma longa construção de caos e violência picotada em 18 minutos, onde o resultado parece ser a colagem de uma dúzia de músicas sobrepostas; isto é uma verdadeira tormenta. Imagine uma embarcação perdida em alto mar e lutando contra uma tempestade que ataca de todas as formas, essa é a paisagem sonora apreciada aqui. Já “A.S.H.V.E.S.S.E.L.” e “I.L.K.S.E.E.K.E.R.” são curtos interlúdios que somadas têm três minutos, mas que conseguem manter um clima perturbador.

Não é loucura alguma afirmar que há uma boa dose de free jazz nas composições, devido a imprevisibilidade gigantesca. É como se batessemos de frente com uma versão cacofonica de Ornette Coleman, surgida de algum lugar frio e imundo. Além das músicas terminarem abruptamente, a produção é intrigante de tão tenebrosa – e chamá-la de “densa” é mero eufemismo. É tão desagradável que chega a ser contemplativo.

Tracklist:
1. V.A.L.I.S.V.E.S.S.E.L.
2. A.S.H.V.E.S.S.E.L.
3. L.O.R.E.S.E.E.K.E.R.
4. I.L.K.S.E.E.K.E.R.
5. S.T.A.R.S.E.E.K.E.R.

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Resenha: Goat – Commune (2014)

A internet é a maior vilã e é a maior heroína do século XXI. Esta parece ser uma frase simplória e rasa, mas é o retrato dos tempos modernos. Ao mesmo tempo em que ela pode diminuir o contato social, devido as inúmeras tentações virtuais (ou apenas “ações sugadoras de tempo”), ela pode também encurtar distâncias, acabar com fronteiras. E só assim conheceriamos o Goat: uma banda surgida em um vilarejo sueco chamado Korpilombolo, de 529 habitantes.

Ser um grupo musical surgido no meio do nada pode não significar muita coisa, mas um dos grandes charmes desta banda é que ela é inspirada na mitologia nórdica e que ela é pensada como uma espécie de ritual voodoo. Aqui os membros não têm nomes e se vestem e usam máscaras como se fossem uma tribo. Parece exótico? Sim, não é apenas exótico, é folclórico. Porém, para sustentar todo esse carnaval existe uma musicalidade extremamente sólida, e este é o ponto principal aqui.

O termo “World Music”, que também serve para dar título a estreia do Goat (2012), faz sentido quando é aqui encaixado. Além de apresentar essas influências escandinavas nada convencionais, a banda ainda traz elementos de psicodelia britânica, sons vindos do mais arenoso sudoeste asiático e muita música africana. A reunião dessas etnias cria algo experimental e ácido, envolto sobretudo em um misticismo que necessita ser explorado.

“Talk to God”, com quase sete minutos, começa com o repicar lento dos sinos, a chamada solene para a adoração, e então a guitarra hipnótica toma o lugar. Como a própria banda, é uma canção urgente e intensa, exigindo atenção e ainda permanecendo muito misteriosa em seu núcleo. Todas as músicas fazem a trilha de um ritual espiritual; algumas próximas do acid-rock, como “Words” – com uma terrível energia; outras com elementos orientais (“The Light Within”); drones selvagens e libertadores (“Gathering of Ancient Tribes”); ou simplesmente psicodélicas, como “Hide From the Sun”, e estas viagens neuróticas geralmente não têm nacionalidade. E nem precisam ter.

Tracklist:
1. Talk To God
2. Words
3. The Light Within
4. Travel The Path Unknown
5. Goatchild
6. Goatslaves
7. Hide From The Sun
8. Bondye
9. Gathering Of Ancient Tribes

Resenha: Ides of Gemini – Old World New Wave (2014)

Assim como The Devil’s Blood e Jess and the Ancient Ones, o Ides Of Gemini é uma banda que também apresenta vocais femininos e foca no oculto. O trio formado por Sera Timms (vocal e baixo), Jason Bennett (guitarra) e Kelly Johnston-Gibson (bateria), tinha a missão de afirmar-se musicalmente e consolidar a sua proposta. A estréia, “Constantinopla” (2012), apresentava os instrumentos minimalistas e crus do black metal noventista, porém trazendo principalmente elementos de doom, post-rock e shoegaze; com o resultado soando despretensioso.

“Old World New Wave”, lançado pela Neurot Recordings, gira em torno da voz de Sera Timms; não pela falta de qualidade dos outros membros, mas sim pela excessiva técnica de Sera, que assombra com o seu vocal com momentos etéreos e quase operísticos. Bennett é uma incrível máquina de riffs densos, muito influenciado por Victor Griffin do Pentagram. Já a baterista soa simplista na maioria das vezes, mas nada muito prejudicial.

As letras falam de dualismos: forças opostas (yin-yang) com seus conflitos psicológicos e cada uma movida por um ideal. O foco é realmente a escola da psicologia analítica de Carl Jung, que descreve determinadas estruturas de transformação psico-espiritual. “May 22, 1453” pode resumir toda essa transgressão emocional; sendo uma canção ritualística sobre o eclipse lunar que teria previsto a queda de Constantinopla na mesma data.

“The Adversary” é um dos poucos momentos onde a guitarra de Bennett vence os vocais esotéricos de Sera; onde baixo e bateria se entrelaçam e a guitarra brilha de uma forma suja e pesada. As influências de Pentagram aparecem mais nitidamente em”Black Door” e “Fememorde”, que de fato são Doom. Há ainda atmosferas distintas, como a épica “White Hart” e os zumbidos de “The Chalice & The Blade”; mas as últimas duas faixa decepcionam a aura ocultista do registro, parecendo que não foram desenvolvidas corretamente.

Tracklist:
1. Black Door
2. The Chalice & The Blade
3. Seer Of Circassia
4. White Hart
5. May 22, 1453
6. The Adversary
7. Fememorde
8. Valediction
9. Scimitar

Resenha: Today Is The Day – Animal Mother (2014)

A diferença entre música e ruído é subjetiva. A situação tornou-se ainda mais complexa após a invenção da “música noise” a algumas décadas atrás – a forma de vanguarda musical que usa elementos “não-musicais” para compor obras musicais. A questão psicológica e filosófica não é quais tipos de sons são considerados ruído ou música; mas sim, o que isto pode causar na mente. E sim, nunca é uma jornada tranquila.

A imprevisibilidade nas ações é algo comum em quem tem distúrbios mentais; mas isto não é um sinal de loucura, apenas é um sintoma de quem tem uma mente complexa e inquieta. E quando esta imprevisibilidade vem em forma de música, é apenas mais uma forma de testar a nossa capacidade de compreensão sobre a consciência humana e como isto pode nos tocar através de sensações.

Mestre nesse tipo de provocação psicótica, o Today Is The Day é uma banda formada em 1992, onde mudanças estilísticas e na formação ocorreram em cada álbum; porém, sempre com Steve Austin tomando as rédias. “Animal Mother” é o décimo registro da carreira, o primeiro pelo selo da Southern Lord; e soando intensamente lamacento e libertador.

Se a faixa-título tem momentos e ritmos ímpares, “Disciple” é efetivamente feroz e enquadra o ouvinte em uma sala úmida; e a progressão de “Sick Of Your Mouth” é um belo passeio pelo lodo das entranhas cerebrais. Contrabalançando tudo, “Outlaw” tem duas versões: uma acústica, profunda e que parece levar a uma terapia condenatória; e uma elétrica, ainda mais desafiante. Outra música que merece destaque é “Bloodwood”; semi-acústica, arrastada e reflexiva. Certamente é um registro que precisa ser ouvido de forma integral, e pelo menos uma das faixas vai te puxar para dentro.

Tracklist:
1. Animal Mother
2. Discipline
3. Sick Of Your Mouth
4. Imperfection
5. Law Of The Universe
6. Outlaw
7. Godcrutch
8. Divine Reward
9. Masada
10. Heathen
11. Mystic
12. The Last Strand
13. Outlaw
14. Bloodwood

Resenha: Trophy Scars – Holy Vacants (2014)

Formado em 2002, na estado de New Jersey, o Trophy Scars é uma banda americana de Post-Hardcore que sempre carregou uma intensa dose de emotividade, além de várias alterações em sua sonoridade e algumas mudanças de membros.

As expectativas de muitos foram altas após o EP “Never Born, Never Dead” (2011), último trabalho do grupo, trazendo incríveis doses de neo-psicodelia e Blues. A temática ficava centrada em questões existencialistas e experiências de reencarnação.

Mas em “Holy Vacants”, temos um conceito que é verdadeiramente um roteiro cinematográfico; entranho em alguns momentos, mas mescla religião e mitologia de uma maneira fixadora. Tudo acontece em volta de um casal de amantes que busca a fonte da imortalidade; essa qual viria em um incansável abatimento de anjos, usando uma substância chamada Qeres, onde assim poderiam beber o sangue das criaturas divinas e buscar a vida eterna.

Toda essa overdose de bizarrices já seria suficiente para o álbum dar errado, mas não, por mais que as letras soem bobas no papel, elas se encaixam perfeitamente com a ideia musical, trazendo o medo e a escuridão para quem acompanha firmemente o desenrolar do registro.

A voz de Jerry Jones é um grande destaque, ficando entre a fúria e a tensão, em alguns momentos lembrando Tom Waits (como em “Qeres”). O álbum atinge o seu auge com a gloriosamente cativante “Crystallophobia”, que segue sólida em todo o seu tempo. Com alguns momentos acelerados, “Gutted” é facilmente a música mais variado do álbum; e “Everything Disappearing” cresce a cada minuto, trazendo riffs de Blues e explodindo em vocais femininos, fazendo o clímax para
terminar o álbum através da calma e bela “Nyctophobia”.

Tracklist:
1. Extant
2. Qeres
3. Archangel
4. Crystallophobia
5. Burning Mirror
6. Hagiophobia
7. Chicago Typewriter
8. Vertigo
9. Gutted
10. Every City, Vacant
11. Everything Disappearing
12. Nyctophobia

Resenha: Yossi Sassi – Desert Butterflies (2014)

Yossi Sassi foi o fundador, guitarrista e uma das principais mentes criativas do Orphaned Land, banda israelense que ganhou grande destaque por mesclar o Heavy Metal com a música tradicional árabe. Yossi saiu do grupo no início de 2014, após o lançamento de “All Is One”.

Se os motivos de sua saída foram divergências musicais, isso pode fazer sentido ao ouvir o seu segundo álbum solo, que quebra qualquer limite sonoro que a sua antiga banda poderia ter. Aqui, a música oriental de instrumentos como bouzouki e oad, duela principalmente com sons guitarristícos de jazz e folk.

Se de cara “Orient Sun”, com a participação de Marty Friedman, nos remete a uma levada nipônica, a faixa-título tem um pé na surf music – inclusive, lembrando Dick Dale -, contrastando com o sempre presente bouzouki. “Fata Morgana” talvez seja a única canção com uma semelhança remota com o Orphaned Land, contando com guitarras enérgicas e tendo a colaboração de Ron ‘Bumblefoot’ Thal.

“Believe” é agradável e suave, cheia de sons acústicos e trazendo a italiana Mariangela Demurtas (Tristania, Moonspell) recitando letras sobre um futuro esperançoso em sua língua materna. Mas canções com a complexidade rítmica do jazz se destacam mais; caso de “Neo Quest” e “Azul” – esta última com uma tristeza sonora única, derramando um solo cuja melodia é riquíssima.

Tracklist:
1. Orient Sun
2. Fata Morgana
3. Neo Ques
4. Azadi
5. Believe
6. Desert Butterfly
7. Inner Oasis
8. Shedding Soul
9. Jason’s Butterflies
10. Azul
11. Cocoon