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O selo Dream Catalogue em 2016 e o vaporwave como arte conceitual da pós-internet

Teorizar o que de fato seria o vaporwave, como forma de expressão artística, é um tanto difícil, simplesmente por ser algo da pós-internet e com os seus criadores tendo visões tão díspares sobre a proposta do movimento. Seu ponto-chave é a reciclagem estética e uma nostalgia subjetiva, onde a parte gráfica é tão fundamental quanto a música apresentada. O uso de estilos musicais comerciais (como o pop e o R&B) de maneira sampleada se une aos visuais 8-bit, com imagens de softwares antigos, glitches caóticos e referências a grandes marcas ícones do capitalismo.

O (hiper)contexto em que esses elementos são expostos também faz com que o vaporwave seja uma crítica à sociedade consumista, buscando desvirtuar os elementos tradicionais da indústria, citados acima, a fim de gerar um conflito na mente do receptor – como se essa relação aleatória fosse uma overdose imaginária nunca antes sentida. Essa junção de simbologias pode ser vista como uma hiper-realidade (quando há a incapacidade de distinguir o que é real e o que é uma simulação da realidade), podendo ser explicada de forma prática pelo teórico francês Jean Baudrillard, utilizando a Disneylândia como exemplo: “a Disney propõe-se a ser um mundo infantil, a fim de nos fazer acreditar que os adultos estão em outro lugar, no mundo ‘real’”. Essa ideia foi melhor explorada baseando-se nos conceitos do vaporwave por Thiago Miazzo, em um ensaio sobre o tema que pode ser lido aqui e aqui.

Real ou fantasia?

Musicalmente falando, para começar a entender esse labirinto, tome como base os álbuns Eccojams Vol. 1 (2010), de Chuck Person, Far Side Virtual (2011), de James Ferraro e Floral Shoppe (2011), de Machintosh Plus; apesar de ser ainda possível encontrar ramificações que se diferem destes, como o Future Funk e dos lançamentos do selo Dream Catalogue. E esta gravadora, fundada em 2014, merece grande destaque dentro desse universo, pois, a meu ver, é a responsável por trazer artistas que buscam novos caminhos dentro dessa estética e assim se torna o alicerce para o futuro do vaporwave como música.

“o nascimento de um novo dia”

Apesar de não época já ter mais de 50 álbuns em seu catálogo – pra se ter a dimensão da quantidade de material que se é produzido -, o primeiro foco de popularidade ao Dream Catalogue se deu após uma matéria na Rolling Stone que envolvia o projeto 2814, gerando também aclamação em diversas mídias destinadas a sons “experimentais”, além de profundas discussões em fóruns na internet. Pensando nisso, resolvi indicar dois álbuns que saíram recentemente pelo selo:

WosX – Brasil World Cup 2034

O conto, que teoricamente serve como completo na experiência de ouvir o álbum – pela leitura se encaixar nos temas abordados nas faixas -, traz mais dúvidas do que respostas; por ser uma narrativa com tantos elementos brasileiros atuais, escrita por um canadense e baseada obviamente em 2034. O som é o que mais interessa: beats eletrônicos, com samples captados da copa do mundo de 2010 e 2014, áudios com falas em português, instrumentos de samba e sons ambiente. Talvez, pelo conceito vaporwave, esse é um álbum feito em 2016 e para ser ouvido em 2034.

2 8 1 4 – Rain Temple

2814 é um projeto nascido da parceria entre Telepath e o produtor britânico Hong Kong Express. Rain Temple pode ser encarrado como a continuação do aclamado 新しい日の誕生/Birth of a New Day, inclusive trazendo as mesmas referências na capa, além da atmosfera densa e peculiar. A forma com que as fields recordings são encaixadas nas ambiências “futuristas” em “Eyes of the Temple” e “Lost in a Dream”, principalmente, fortalece o clima melancólico do som – e isso talvez seja a maior virtude desde o álbum anterior.

Aquela sensação de não saber por onde pisar, pois a visão está nublada. O frio da vida urbana, a solidão, a chuva que cai lá fora sem precisar de motivo… É como um lugar sagrado distante, em uma realidade que não podemos perceber com nossos sentidos limitados.

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