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Resenha: Corpo-Mente – Corpo-Mente (2015)

A forma como eu cheguei a este álbum é meio inusitada: recentemente revisitei o controverso “Illud Divinum Insanus”, último álbum lançado pelo Morbid Angel em 2011. O álbum dividiu opiniões principalmente por explorar amplamente vários elementos industriais – lembremos que o Morbid Angel é uma das mais lendárias bandas de death metal da história, e muitos dos seus fãs têm a mente fechada para aceitar experimentações.

Em 2012 o Morbid Angel exploraria de uma maneira ainda mais drástica essa sua nova faceta. A ideia da banda foi convidar 39 dos nomes mais prolíficos do cenário eletrônico e experimental mundial, dando a cada um a missão de criar remixes para músicas do álbum do ano anterior. Assim nasceu “Illud Divinum Insanus: The Remixes”, ainda mais execrado pela crítica e fãs mundo afora. E nele estava o francês Igorrr (pseudônimo de Gautier Serre), responsável pela faixa “Remixou Morbidou”, uma das poucas músicas que realmente me agradaram (apesar do título horrível) daquele álbum.

Gautier Serre na verdade é um multi-instrumentista e produtor de música eletrônica que está na ativa desde 2005. Envolvido em inúmeros projetos, ele tem o reconhecimento em seu meio por ter criado o baroquecore (gênero musical que mescla breakcore, música barroca e elementos industriais influenciados pelo death metal), com destaque no EP de mesmo nome lançado em 2010.

O Corpo-Mente, no caso, é um projeto experimental que envolve Igorrr (tocando todos os instrumentos) e a também francesa Laure Le Prunenec (nos vocais); ambos sendo membros da banda de ghotic/doom metal Öxxö Xööx. Laure tem uma voz poderosa, como a de uma cantora mezzo-soprana, e sua extensão vocal é realmente o que sobressai de tudo aqui. A parte operística, trazida por ela, traz uma dose emocional incrível nas canções, e encantará mesmo quem é leigo em música clássica.

E essa voz mágica é conduzida pela musicalidade de Gautier Serre, que colocou o seu virtuosismo em relevo, servindo de fio condutor entre o mundo real e uma fábula. Porque, a partir da faixa de abertura – que parece mergulhar em uma história infantil com tons escuros, referindo-se aos Irmãos Grimm, entre outras coisas -, um quadro toma forma gradualmente. O caminho criado nos 40 minutos das dez músicas é uma jornada transcendental, onde a mãe natureza parece desempenhar um forte papel, banhada por belos momentos acústicos folk que deságuam em apoteóticas batidas trip-hop.

Difícil é citar destaques, pois cada canção tem uma particularidade. “Equus”, é frágil e orgânica, trazendo o cruzamento de piano, violino e acordeão; já “Dulcin” e “Ort” crescem, se alimentam de faíscas elétricas e explodem em um desfecho roqueiro. Há também momentos onde Laure parece expelir sentimentos reprimidos através da sua garganta, como em “Dorma”, de um jeito que consegue ser perturbadora e graciosa ao mesmo tempo. É como se a sensibilidade vocal de Diamanda Galás encontrasse a genialidade eletro-acústica de Aphex Twin no conceito experimental do Ulver; claro, com uma pitada de música francesa.

Tracklist:
1. Scylla
2. Arsalein
3. Fia
4. Velandi
5. Dorma
6. Dulcin
7. Equus
8. Ort
9. Saelli
10. Encell