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Resenha: God Pussy – Retratando a Realidade Bélica (2016)

Noise não é ruído. 

Maio de 2006 foi o mês que nunca acabou. Entre os dias 12 e 16 daquele mês, uma onda de assassinatos ocorridos no estado de São Paulo ficou conhecida como “crimes de maio”. O início desse pesadelo começou no dia 11, quando a Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo informou que iria transferir 765 presos para a Penitenciária 2 – de segurança máxima – de Presidente Venceslau, e entre eles estava Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola, considerado o líder do PCC (Primeiro Comando da Capital). Revidando essa transferência, integrantes da facção começaram uma das maiores ofensivas da história contra as forças da segurança pública paulistas; com ataques sobre delegacias, membros da Polícia Militar, da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros e da Guarda Civil Metropolitana.

Nos dias posteriores aos ataques do PCC, pessoas civis, ligadas ao crime ou não, com passagem ou não pela polícia, começaram a morrer assassinadas em regiões suburbanas da capital, em Guarulhos e na Baixada Santista. Ao todo foram 450 civis mortos naquela semana por bala de fogo (dez vezes o número de agentes públicos que perderam a vida nos ataques no mesmo intervalo de tempo). Entre essas pessoas exterminadas – sob alegações duvidosas da polícia de “queima de arquivo” – estava o gari Edson dos Santos (29 anos), que voltava para residência após passar na casa de sua mãe para buscar um remédio e foi fuzilado por homens encapuzados na periferia santista. Débora da Silva, mãe de Edson, entrou em depressão e foi internada devido ao ocorrido em sua vida; mas, após receber alta e reencontrar forças, Débora resolveu procurar mães que também tiveram filhos assassinados naquela semana de maio.

Dessa reunião de histórias de sofrimento, surge em Santos o movimento Mães de Maio, liderado por Débora, na busca por respostas para a morte de seus filhos, e que logo subiu para São Paulo – pois essas mães perceberam que não havia interesse da justiça em solucionar os crimes na Baixada. O grupo tem como missão lutar pela verdade, pela memória e por justiça para todas as vítimas da violência discriminatória, institucional e policial contra a população pobre, negra e os movimentos sociais brasileiros, de ontem e de hoje. Como forma de reverberar e não deixar que os acontecimentos sejam esquecidos, o movimento lançou o livro Do Luto à Luta, que pode ser lido aqui.

Como forma de representar essa agonia que permeia a repressão, a morte e o abandono causada pela violência armada, o projeto carioca de música noise God Pussy lançou Retratando a Realidade Bélica, em 2016. Em minha visão, o álbum conversa muito bem com os fatos que pesam na vida das Mães de Maio, pois as faixas simbolizam esse genocídio velado, que atinge diariamente de maneira muito mais significante os subúrbios, onde as vítimas são esquecidas como se fossem números de estatística. Essa representação da realidade nas favelas é feita com um intenso som áspero, cuja sonoridade é caótica, com momentos de “quebra” e repetição para transmitir melhor essa sensação desesperadora do aniquilamento da própria alma. “Senzalas Contemporâneas” e “Pobre Na MIRA (Vulgo ‘Bala Perdida’)” simbolizam bem o que eu quero destacar no som presente aqui.

“Nosso nome é para lembrar que não temos o direito de comemorar o Dia das Mães porque nos falta um filho”, explicou Débora certa vez para a Folha de São Paulo e, assim como elas são ativistas nessa luta contra a negligência e os abusos do Estado, o God Pussy milita politicamente pelos periféricos e excluídos através do noise; esta bandeira que o torna essencial artisticamente entre os criadores da música ruidosa pelo país.

Para exemplificar melhor essa ligação, o clipe para “Mais Uma Mãe Chora Na Perda De Seu Filho!” conta com o depoimento de uma Mãe de Maio e traz esses sentimentos turbulentos de indignação, ódio e luta por justiça. “Menó Sangue Nos Olhos” e “Caos Nosso De Cada Dia” também ganharam vídeos.

A descrição no bandcamp do artista também merece destaque (assim como as artes individuais para cada faixa, que você pode conferir clicando em cada uma delas por lá):

Descrevendo lucidamente sob fragmentos revolucionários, militância, ódio e fúria, baseado nos confrontos diários, atacando e executando um desentupimento auditivo com 15 rajadas de ruídos ásperos com um extremo conteúdo sobre nossas guerras e injustiças.

Tracklist:
1. Senzalas Contemporâneas
2. Mais Uma Mãe Chora Na Perda De Seu Filho!
3. Hoje Noticia – Amanhã Estatística
4. Explícito Morticínio
5. Trauma E Memória Às Vítimas Do Genocídio
6. Repressão, Aniquilamento & Velório
7. Justiças Com as Próprias Mãos
8. Menó Sangue Nos Olhos
9. Pobre Na MIRA (Vulgo ‘Bala Perdida’)
10. 13 De Maio É Uma Farsa
11. Ciclo De Corrupção Ativa
12. Protagonista De Um Filme De Terror
13. Cadê Os Esquecidos?
14. Caos Nosso De Cada Dia
15. Obituário… FIM!!!

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10 álbuns nacionais lançados no primeiro semestre de 2016 que você precisa ouvir

Como nos últimos meses eu ando meio desleixado no que se refere a publicar posts novos no blog, resolvi mandar uma lista logo com dez álbuns, uma quantidade superior se comparado a quando eu resolvi fazer algo semelhante em 2015. Mas veja bem, apesar de serem dez álbuns, muitos outros dentro dos subterrâneos da música brasileira ficaram de fora; isto é, os selecionados aqui são novamente os que eu achei mais interessante dentro da subjetividade do meu gosto.

Afro Hooligans – Corpo Fundo

O trio paulistano formado por Marcos Felinto, Everton Andrade e Guilherme Henrique se autodenomina como um “projeto xamânico de música eletrônica experimental” e ouvindo este novo álbum é possível entender o porque. Tudo aqui – incluindo o conceito de complexidade e abundância da natureza humana, presente no título – parece ter sido proposto dentro de uma grande trip psicodélica (daquelas que te fazem pensar no sentido da tua própria existência), e essa mistura imperfeita de ruídos com compassos house foi criada de uma maneira que você de fato sente-se abraçado por um misticismo primitivo.

Cadu Tenório & Thomas Rohrer – Fórceps

Fórcepss.m. Instrumento cirúrgico com que se extrai o feto do útero; pinça ou tenaz com que se agarram os corpos que se querem extrair. (Do Lat. fórcipe)

Este “parto difícil”, que o título do registro insinua, tem a ver não só com as duas sessões gravadas e que foram perdidas antes daquela que forma Fórceps,  mas também ao simples fato de que todo tipo de improvisação é algo extremamente complexo. O que o produtor Cadu Tenório e o rabequeiro e saxofonista suíço (radicado brasileiro) Thomas Rohrer fazem é criar a combinação de dois mundos opostos – coisa que Cadu busca a algum tempo -, onde o elo entre esses dois é a eterna aprendizagem de recriar a si mesmo.

Cássio Figueiredo – Presença

Talvez o grande ponto-chave que torne Presença um álbum tão forte esteja no fato de quê quem o ouve possa ter uma percepção dessa “presenção” totalmente diferente de qualquer outra pessoa. Eu senti que os momentos mais calmos são como o frio da penumbra da noite, e os cortes abruptos são como um clarão se aproximando em minha direção; mas veja bem, como eu disse, se você buscar ouvir as faixas, provavelmente terá alguma sensação diferente. O nome de cada som e o som em si também são grandes paradoxos que engrandecem ainda mais o conceito por trás.

Ruídos abafados, vozes, manipulação de cassetes … Tudo soa tão imprevisível e fantasmagórico, mas ao mesmo tempo afetuoso e vivo.

Deaf Kids – Configuração do Lamento

O lamento em questão aqui é a cultura da exploração da América Latina e a forma como esses cariocas enfiam o de dedo nessa ferida é através de uma surpreendente desconstrução do crust. E bom, é inegável que os tribalismos na bateria e os murmúrios de Dovglas Leal trazem também um pouco desse sofrimento… As dissonâncias e a sujeira abrasiva não dão a você uma dor física como a de quem sangrou e não teve como estancar, mas internamente dizimam o seu ego e te jogam uma verdade: o teu lamento de hoje é tão sólido quanto o pó.

Se você está afim de algo agressivo para levantar o astral da sua manhã, coloque esse split bem alto. A primeira parte do disco é a dos paulistas do Desalmado, que apesar da brutalidade, consegue encaixar uma cadência ao som; enquanto a parte dos catarinenses é um grindcore misturado com death metal e crust que é a pura violência sonora. Como de praxe, o extremismo também está presente nas letras de ambas as bandas, com fortes críticas à opressões sociais.

Giant Gutter From Outer Space – Black Bile

Já vi o esse duo curitibano ao vivo  e posso afirmar pra vocês que a coisa toda torna-se ainda mais intensa. O que o Giant Gutter From Outer Space faz em seu primeiro full-lenght é renovar as entranhas que formam a base do seu som tortíssimo; onde cada um dos músicos busca criar algo oposto em relação ao outro, só que, ao mesmo tempo, tudo está conectado. É metal jazzístico que não se importa em soar massivo ou técnico, apenas fluir por si só. Lembrando que o trabalho da dupla Johnny R. Rosa (bateria) e Hernan Borges de Oliveira (baixo) saiu novamente pela selo Sinewave.

God Pussy – Desaparecidos

Para aqueles que acompanham o trabalho do projeto carioca God Pussy, já é fácil notar que Jhones Silva aprecia entregar a experiência mais desconfortável possível a quem está disposto a ouvir. E isso vai muito além da corrosão sonora, pois ele normalmente também costuma retratar, na temática dos seus lançamentos, as angústias do submundo esquecido pela sociedade. Desaparecidos é síntese do desespero humano, como pode ser ouvido logo na primeira faixa, com o sofrimento de mães que perderam o sentido da vida após o sumiço de seus filhos. O release descreve a obra de forma perfeita:

“Pessoas desapareceram – Não existem rastros ou paradeiros – iniciando um mistério duradouro – muitas vezes sem solução – criando uma desestrutura familiar…
Desaparecidos: Onde estão? Pra onde foram? São perguntas sem respostas, são dúvidas cruéis do que pode ter ocorrido, são lembranças vagas e sofrimentos eternos aos familiares… Casos sem respostas apenas dúvidas e estatísticas.”

Gustavo Jobim – Dezoito

Conheci Gustavo pelo álbum Inverno (2014), e bem, se aquela capa gélida representava de maneira perfeita o clima das composições, Dezoito também não foge disso: a capa ensolarada é o frescor e a avidez que o músico encontrou, involuntariamente ou não, aqui. Isso é possível ser ouvido em “Heart and Sound and Soul and Vision” (cujo título é uma junção de uma música do Joy Division e outra de David Bowie), que contém uma contagiante harmonia em espiral. Podemos sentir as influências da Berlin School de Klaus Schulze e Tangerine Dream ao ouvir “The Road”, ou ainda compreender que o título de “For Richard Pinhas” não é apenas um mero detalhe. Entre ruidosas percussões metálicas e sintetizadores minimalistas, temos uma bela ode ao progressive eletronic da déada de 1970.

Metá Metá – MM3

O Metá Metá aos poucos vem ganhando certa popularidade em meios não tão alternativos, porém, o reconhecimento ao trabalho do trio ainda é pequeno se comparado a riqueza e a simbiose musical que vem se renovando a cada lançamento. Aqui há uma urgência enorme – tanto é que foi gravado em apenas três dias – e, inclusive, dá para afirmar que este é o álbum mais pesado e ruidoso que Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França já lançaram juntos. O som é metamorfo, desde o vasta carga jazzística do sax de França, ao incrível repertório de Kiko na guitarra, passando pelas influências tão diversas (e que se fundiram tão homogeneamente) que o baixo de Marcelo Cabral e a bateria de Sérgio Machado trouxeram. Free-jazz, candomblé, samba, art-punk… Tudo é feito e misturado de uma forma muito forte e viva.

Romulo Fróes – Rei Vadio

Rei Vadio é o primeiro álbum de Romulo Fróes como intérprete e homenageia Nelson Cavaquinho justamente no ano em que sua morte completa 30 anos. Entre escolhas de canções menos óbvias e tantas outras deixadas de lado por serem exclusivamente o reflexo de Nelson, Romulo consegue desconstruir sem borrar a beleza melancólica das obras originais. E para tal feito, conta com a ajuda dos seus parceiros de longa data: Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Thiago França – este último com um solo free jazz de sax esplendoroso em “Mulher Sem Alma” -; além das ilustres participações de Dona Inah (“Eu E As Flores”), Ná Ozzétti (“Caminhando”), Criolo (“Luz Negra”) e da Velha Guarda Musical da Nenê de Vila Matilde (Vou Partir”). Difícil transcrever em palavras a força que esse tributo possui; reinterpretações que estão naquela linha tênue entre o tradicional e o transgressor… Não é para qualquer um.