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Resenha: Mütterlein – Orphans Of The Black Sun (2016)

Rotineiramente, eu e outras pessoas com fome de consumir formas de música “dark” vamos direto a fontes ligadas ao metal extremo, ou por artistas que sustentam a sua maneira de compor em referências de sons barulhentos similares a isto. Mas às vezes a essência da dor, frustração, raiva, isolamento e o desejo desafiador de jogar fora as amarras, que tanto prendem tais sentimentos e restringem a sua expressão, podem ser transmitidas por outros meios. E muitas vezes a convocação dessa essência vem de fontes inesperadas.

Orphans Of The Black Sun é o primeiro álbum do duo francês Mütterlein – cujo nome foi retirado de uma música de Desertshore (1970), disco da cantora e atriz alemã Nico -, formado pela vocalista, compositora e intérprete Marion Leclercq (da cultuada banda francesa Overmars) e apoiado pelo multi-instrumentista Christophe Chavanon; servindo também como estreia do selo Sundust Records. E eu não sei de que forma eu deveria rotular esse som, para direcionar o leitor que se interessar em ouvir o que se encontra aqui, até porque estou confortável com o termo “Rock Assombroso” que eles mesmos criaram. Esta é uma música original, que é também altamente emocional e densa, mas ainda assim, Orphans of The Black Sun é acima de tudo um álbum que transcende as fronteiras da darkwave, do folk apocalíptico, do ambient e do post-punk, oferecendo uma experiência única.

Se você for ouvir Mütterlein pela primeira vez, é provável que aquilo que se destaca de imediato é a voz de Marion Leclercq. Não é bonita em qualquer sentido clássico ou convencional, mas há uma gigantesca pureza e poder, uma paixão genuína naquilo que ela transmite; uma obscuridade peculiar e exótica diferente de cantoras como Diamanda Galás, Jarboe ou Chelsea Wolfe. E a música que circunda a voz dela, como uma névoa sobre a roda, é ao mesmo tempo sombria e sinistra, tanto ritualística como alucinatória. Tudo está interligado, e o álbum funciona melhor se ouvido como uma totalidade, mas ainda assim, quando Marion coloca todo o seu ser na frenética “My War” você vai permanecer sem palavras, acredite. Um drama tão poderoso e virulento, construído sobre o ódio, dor e medo, que é impossível manter-se despreocupado e calmo. Já “Mother Black Sun”, que encerra o registro, traz uma espécie de serenidade, fragilidade e um estranho conforto que fundem-se com uma enorme dose de melancolia em seu término, mas mesmo assim o suspense e vazio são eminentes.

Vale ainda destacar as fortes mensagens líricas, geralmente tecendo histórias fascinantes de vidas destruídas, neuroses profundas ou insanidade, catapultando a intensidade do álbum, que já é emocionalmente carregada e sombria. A voz de Marion é uma fonte adequada para passar essa mensagem, ainda que surpreendentemente abstrata em expressividade, conseguindo provocar medo e calafrios. Às vezes parece que é possível ouvir uma pessoa esquizofrênica sofrendo dentro de si mesma, às vezes soa como uma bruxa levado para uma fogueira para ser queimada, em outros momentos também soa frágil ao ponto de você sentir uma espécie de compaixão.

Tracklist:
1. Lesbians Whores And Witches
2. Black Dog
3. My War
4. Heirs Of Doom
5. Ghost Army
6. Mother Black Sun

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