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William Blake, os Provérbios do Inferno e a música

The Body of Abel Found by Adam and Eve

Pode-se dizer que William Blake foi um artista completo: poeta, pintor, ilustrador, místico e revolucionário; viveu os seus setenta anos com ideias e ações bem à frente da sociedade inglesa da primeira metade do século XIX. Defensor do individualismo, da liberdade sexual, de um papel mais relevante para a mulher, sua poesia influenciou poetas de grande importância para o avanço das concepções e técnicas poéticas.

Por ter uma série de visões radicais, o poeta foi chamado de louco por décadas, mas engana-se quem acredita que ele teve uma base educacional sólida: Blake jamais foi a escola. Mas isto não gerou qualquer ressentimento contra seus familiares; tanto é, que em Canções da Experiência, ele descreve um jovem estudante que é forçado a ir a escola por seus pais e solta o seguinte desabafo no conto: “A instrução não serve para nada. Considero-a um mal – o maior dos pecados”, firmando assim seu pensamento a favor do autodidatismo humano.

Seu gosto por redesenhar e transcrever gravuras veio desde a infância e foi desenvolvido antes mesmo de iniciar suas aventuras poéticas, procurando criar uma personalidade própria e ir contra o que chamava de “pintura acadêmica do século 18”, e que representava tudo o que ele detestava na época em que estava vivendo: o racionalismo e o materialismo. Veja abaixo algumas de suas obras

O Ancião dos Dias
Nebuchadnezzar
O Fantasma de uma Pulga
Newton

Blake escreveu The Marriage of Heaven and Hell no início de 1790, no ápice da Revolução Francesa, quando ele compartilhava as expectativas de vários conterrâneos radicais, que a Revolução era a violência universal que foi predita pelos profetas bíblicos como um estágio imediatamente anterior ao milênio. Com esse livro, o autor pretendeu escrever uma “nova Bíblia” – ou uma anti-Bíblia -, pois evoca, em certos momentos, uma “Bíblia do Inferno”. Profundo conhecedor e estudioso dos livros sagrados e da Cabala, Blake contesta a ordem de ambas as religiões, judaica e cristã, opondo-lhes, como poeta, uma transgressão inusitada.

O livro é dividido em cinco capítulos, com os dois primeiros trazendo uma espécie de “introdução do que é o bem e o mal” (que seriam necessários para o andamento do mundo); e no terceiro capítulo cria uma análise sobre o inferno – aparentemente é um lugar de tormentos, mas que na realidade é onde pensadores livres podem deleitar-se com a verdadeira experiência da existência. Já a quarta parte, na qual me estimulou a escrever este texto, traz uma série de metáforas que foram universalmente espalhadas pelo mundo posteriormente.

Blake, ainda em seu passeio pelo inferno, coleta alguns provérbios e afirma que estes são apenas ditados cativantes, com uma moral que ajuda as pessoas a se lembrarem do que é certo. Dependendo da visão de quem lê, pode ser interpretado como apenas uma sátira ou como pura blasfêmia, pois a Bíblia tem um livro inteiro só de provérbios, e Blake sabia já naquela época que seus leitores estariam familiarizados ao simbolismo positivista deles. A inclusão desses provérbios também pode ser enxergada como um ato do autor para manter uma relação com o mundo através de sua mente e os usa para defender a sua visão.

A banda feminina de pós-punk As Mercenárias musicou 80% dos provérbios em seu segundo disco, Trashland (1988), em português

Já o Ulver buscou algo ainda maior em 1998: musicou todos os cincos capítulos do livro do poeta no álbum de industrial metal Themes from William Blake’s The Marriage of Heaven and Hell, e o resultado pode ser ouvido em “Proverbs of Hell”

Proverbios do Inferno

No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.
A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.
Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.
O verme partido perdoa ao arado.
Mergulha no rio quem gosta de água.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.
Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.
A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.
A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.
As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.
Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.
Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez.
Nenhum pássaro se eleva muito, se se eleva com as próprias asas.
Um cadáver não vinga as injúrias.
O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.
Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.
A loucura é o manto da velhacaria.
O manto do orgulho é a vergonha.
As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.
O orgulho do pavão é a glória de Deus.
A luxúria do bode é a glória de Deus.
A fúria do leão é a sabedoria de Deus.
A nudez da mulher é a obra de Deus.
O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.
O rugir de leões, o uivar dos lobos, o furor do mar tempestuoso e da espada destruidora são fragmentos de eternidade grandes demais para os olhos humanos.
A raposa condena a armadilha, não a si própria.
Os júbilos fecundam. As tristezas geram.
Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.
O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.
O sorridente tolo egoísta e o melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que sejam flagelos.
O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.
A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes;
o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.
A cisterna contém; a fonte derrama.
Um só pensamento preenche a imensidão.
Dizei sempre o que pensas, e o homem torpe te evitará.
Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade.
A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.
A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.
De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.
Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.
Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da educação.
Da água estagnada espera veneno.
Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.
Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!
Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.
O fraco na coragem é forte na esperteza.
A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa.
Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.
Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.
A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.
Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.
Criar uma florzinha é o labor de séculos.
A maldição aperta. A benção afrouxa.
O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.
Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!
A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.
Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.
A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.
A Exuberância é a Beleza.
Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.
O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.
Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.
Onde o homem não está a natureza é estéril.
A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.
É suficiente! ou Basta.

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